Ao entardecer, guarás pintam de vermelho os manguezais de São Luís
- reginaldorodrigues3
- há 1 hora
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Cazumbá abre série especial pelos 414 anos da capital revelando uma cena que acontece quase silenciosamente ao lado da Avenida do Reggae. Guarás, garças, biguás e outras aves transformam o fim da tarde em um espetáculo de cores e movimentos sobre os manguezais da ilha. Especialista alerta que dormitórios e ninhais são ambientes sensíveis e precisam ser preservados.

No próximo dia 8 de setembro, São Luís completa 414 anos de fundação. Para celebrar a data, o Cazumbá inicia uma série de reportagens mostrando cenas, lugares, personagens e particularidades de uma cidade que ainda guarda surpresas até para quem convive com ela todos os dias.
A proposta é olhar além dos cartões-postais. Revelar aquela São Luís que está diante dos nossos olhos, mas que a pressa cotidiana muitas vezes não permite enxergar.
E a primeira cena dessa série acontece no manguezal, ao cair da tarde.

São Luís é mesmo uma ilha sui generis. Atrai, encanta e, quando parece que já conhecemos seus cenários, encontra uma maneira de apresentar alguma coisa nova. Às vezes, basta diminuir a velocidade e olhar para o lado.
Foi assim que o Cazumbá encontrou um espetáculo que acontece praticamente às margens da Avenida do Reggae, antiga Avenida Quarto Centenário.
Em uma área de manguezal relativamente próxima à pista, guarás começam a chegar no crepúsculo e vão ocupando a vegetação. Aos poucos, o verde do mangue ganha pontos de um vermelho intenso, enquanto garças brancas também aparecem entre os galhos.
A imagem impressiona.

De longe, parece um pé de acerola carregado de frutos. Só que, nesse caso, as “acerolas” têm asas.
Quando o mangue começa a ficar vermelho
Por volta das 17h, o movimento começa a ser percebido. À medida que o dia vai se despedindo, mais aves chegam e procuram espaço entre os galhos.
Depois da primeira descoberta, o Cazumbá retornou outras vezes ao local para contemplar a cena e registrá-la em fotografias e vídeo.
A presença dos guarás nessa região não é totalmente desconhecida. Em outra ocasião, aves já haviam sido observadas pelo Cazumbá a partir das proximidades do Hospital Sarah Kubitschek, porém em uma área mais interior do manguezal e de difícil visualização.
Agora, a concentração chama atenção justamente pela proximidade com a avenida.
As fotografias feitas no local mostram guarás espalhados pela vegetação, com sua plumagem vermelha destacando-se intensamente entre as diferentes tonalidades de verde do mangue.
É uma dessas cenas que parecem preparadas para uma fotografia, mas que simplesmente acontecem, todos os dias, seguindo o relógio da natureza.
Dormitório escolhido pelas próprias aves

Para compreender melhor o fenômeno, o Cazumbá ouviu Nathalie Ristau - Biológa, Mestra em Biodiversidade e Conservação pela Universidade Federal do Maranhão - UFMA, Médica-Veterinária e Fundadora do Instituto Amares.
Segundo a especialista, a aglomeração das aves no período do crepúsculo é compatível com a utilização da área como dormitório.
“Sim, se for detectada aglomeração dos animais no crepúsculo”, explica.
Mas Nathalie faz uma ressalva fundamental: dormitórios e ninhais são escolhidos pelos próprios animais e não devem ser considerados ocupações necessariamente permanentes.
“Dormitórios e ninhais são escolhidos pelos animais e são provisórios, não permanentes. Havendo perturbação na área, os indivíduos irão se mudar, buscando novas áreas”, alerta.
Ou seja, justamente aquilo que encanta pode desaparecer caso a curiosidade humana se transforme em perturbação.
Estamos vendo mais guarás?
Para quem acompanha a paisagem de São Luís há bastante tempo, fica uma impressão: os guarás parecem estar mais presentes e visíveis em determinados pontos da ilha.
Nathalie explica que condições ambientais favoráveis podem contribuir para o aumento de uma população.
“Se há disponibilidade de alimento e condições favoráveis de reprodução, a população naturalmente irá aumentar e veremos em maior quantidade”, afirma.
Isso não significa afirmar, sem levantamento científico, que a população de guarás de São Luís efetivamente cresceu nos últimos anos. Mas a explicação ajuda a compreender a relação entre a presença dessas aves, a oferta de alimento e a conservação dos ambientes que utilizam.
E São Luís possui um protagonista fundamental nessa história: o manguezal.
Apesar da expansão urbana, avenidas e edificações, extensas áreas de mangue continuam abraçando diferentes partes da ilha e sustentando uma biodiversidade que nem sempre é percebida por quem observa a cidade apenas pelo asfalto.
Um balé de aves sobre a Beira-Mar
E o espetáculo não termina com os guarás.
Quem deixa a Avenida do Reggae e segue pela Avenida Beira-Mar, especialmente no final da tarde, pode observar outra cena fascinante.
Bandos de aves atravessam o céu em direção às áreas costeiras e de manguezal. Garças aparecem em grupos e aves de plumagem escura e bico alongado, identificadas visualmente como biguás (Nannopterum brasilianum), também podem ser vistas cruzando a paisagem.
Alguns bandos assumem formações que lembram um “V”.
É um verdadeiro balé sobre São Luís.
Embaixo, carros, ônibus e motocicletas seguem o ritmo acelerado da cidade. No céu existe outro trânsito.
O trânsito das aves.
O vermelho dos guarás entre os galhos, o branco das garças e os bandos escuros cruzando o horizonte criam uma coreografia natural sobre uma capital cercada e entrecortada por manguezais.
A cena também provoca uma pergunta: quantos outros dormitórios e ninhais existem escondidos ao longo dos manguezais da Ilha de São Luís?
Certamente, responder a isso exige levantamento científico. Mas o movimento observado ao entardecer revela que existe uma cidade natural convivendo, todos os dias, com a cidade construída.
Contemplar sem colocar o espetáculo em risco
Diante de tamanha beleza, surge naturalmente a possibilidade de contemplação e até de observação de aves. Mas o local onde os guarás foram registrados apresenta uma dificuldade concreta.
A concentração está próxima de uma via movimentada e, especialmente no trecho de ponte, não há estrutura adequada para que motoristas simplesmente estacionem para observar ou fotografar.
Portanto, além da questão ambiental, existe uma questão de segurança viária.
Poderia São Luís, no futuro, ter nas proximidades um espaço seguro para contemplar esse espetáculo?
Talvez. Mas a resposta precisa vir da ciência e dos órgãos responsáveis antes de qualquer intervenção.
Nathalie Ristau explica que dormitórios e ninhais são áreas protegidas e que existem diretrizes para atividades recreativas de observação. No caso de áreas utilizadas pelas aves para reprodução, a perturbação pode inclusive colocar os animais em risco.
Por isso, qualquer ideia de sinalização, recuo, mirante ou ponto de observação precisa ser precedida de estudo.
“É preciso uma avaliação técnica de impactos da área por profissional especializado para análise da viabilidade, considerando comportamento e uso pelos animais e possíveis impactos, além da mitigação desses”, ressalta.
Até que isso aconteça, a recomendação é simples: nada de parar irregularmente na via, aproximar-se das aves, entrar no manguezal ou provocar qualquer movimentação apenas para conseguir uma fotografia.
São Luís 414 anos: uma ilha que ainda surpreende
Talvez seja justamente essa a melhor maneira de começar a série especial do Cazumbá pelos 414 anos de São Luís.
Não pelo monumento mais conhecido. Não pela fotografia tradicional. Mas por uma cena quase escondida entre uma avenida e um manguezal.
Porque nem todo atrativo precisa ser construído.
Alguns já estão prontos.
A natureza preparou o cenário, escolheu o horário e colocou seus protagonistas em cena.
De um lado, a Avenida do Reggae, carregando na paisagem urbana uma das manifestações culturais que ajudaram a tornar São Luís conhecida no Brasil e no mundo.
Do outro, o manguezal e seus guarás.
E, quando o sol começa a baixar, a ilha muda de ritmo.
Os guarás pousam. As garças cruzam o horizonte. Os biguás passam em bandos. O mangue vai ficando vermelho e o céu se transforma em palco.
Para quem passa depressa, pode ser apenas mais um fim de tarde.
Para quem olha com atenção, é aquele enorme “pé de acerola” de asas vermelhas no meio do manguezal e um balé acontecendo sobre a cidade.
Aos 414 anos, São Luís mostra que ainda tem muito a revelar.
E o Cazumbá vai procurar essas cenas.
Porque conhecer uma cidade também é aprender a enxergar aquilo que sempre esteve diante dos nossos olhos.








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