Do Quatro Rodas ao Blue Tree Premium: 50 anos de um hotel que faz parte da história de São Luís
Inaugurado em 31 de julho de 1976, na Praia do Calhau, empreendimento construído pelo Grupo Abril atravessou diferentes bandeiras, acompanhou o crescimento da capital e celebrou meio século de história em uma noite marcada por memórias e homenagens

Há prédios que ocupam um endereço. Outros atravessam gerações e acabam incorporados à memória de uma cidade. O edifício que hoje abriga o Blue Tree Premium São Luís pertence a essa segunda categoria.
Na noite de terça-feira, 18 de agosto, os jardins do próprio hotel, no Calhau, em São Luís, foram cenário da celebração de seus 50 anos de história. Uma noite em que passado e presente se encontraram por meio de homenagens, documentos históricos e depoimentos de pessoas cujas vidas, de alguma maneira, cruzaram com a trajetória do empreendimento.

Casamentos, formaturas, aniversários, grandes encontros empresariais, eventos, hospedagens e histórias familiares foram relembrados. Também ganharam reconhecimento aqueles que construíram, administraram e trabalharam no hotel durante diferentes períodos.
Mais que celebrar os 50 anos de uma empresa, a festa mostrou como um empreendimento hoteleiro inaugurado em 1976 conseguiu se transformar em parte da memória afetiva de São Luís.
31 de julho de 1976: nasce o Quatro Rodas

A história tem uma data precisa: 31 de julho de 1976. Naquele sábado, o jornal O Estado do Maranhão estampou em sua primeira página, em letras garrafais, a manchete: “QUATRO RODAS INAUGURA HOJE”.
O exemplar histórico, hoje preservado e exposto no próprio hotel, ajuda a dimensionar o impacto causado pela chegada do empreendimento à capital maranhense.
O Hotel Quatro Rodas foi construído pelo Grupo Abril, presidido na época por Victor Civita, e fazia parte de uma iniciativa hoteleira associada à marca Quatro Rodas, já conhecida nacionalmente pela revista publicada pela Editora Abril.

O local escolhido foi a Praia do Calhau, numa São Luís bastante diferente da atual. A região ainda apresentava baixa ocupação urbana e grandes extensões de areia, cenário que torna mais fácil compreender o impacto provocado pelo surgimento de um empreendimento daquele porte.
Segundo O Estado do Maranhão, o primeiro hotel do Grupo Abril possuía 132 apartamentos, era considerado de categoria internacional e representou investimento da ordem de 60 milhões de cruzeiros.
A inauguração mobilizou personalidades e autoridades nacionais. Conforme o registro da época, a cerimônia começaria com a bênção do então arcebispo metropolitano Dom José de Mota e Albuquerque, seguida de discurso de Victor Civita e coquetel.
A primeira página do jornal também registrava a chegada de convidados de diferentes partes do país e classificava a inauguração como um dos grandes acontecimentos sociais daquele período na capital.
Era o começo de uma história que se confundiria, nas décadas seguintes, com o próprio crescimento de São Luís.
Um hotel, diferentes bandeiras

Ao longo de meio século, o prédio permaneceu, mas os nomes estampados em sua fachada mudaram.
O Quatro Rodas foi a primeira bandeira, a partir de 1976. Posteriormente, o complexo passou a ser administrado pela Sofitel, marca internacional. Em outra fase de transição, adotou o nome São Luís Hotel.
Mais tarde, o empreendimento passou às mãos da rede portuguesa Pestana, que o administrou nos anos anteriores à chegada da atual bandeira.

Em abril de 2018, iniciou-se um novo capítulo dessa trajetória, quando a Blue Tree Hotels assumiu a gestão do espaço.
Hoje, como Blue Tree Premium São Luís, o empreendimento procura conciliar as exigências da hotelaria contemporânea com a preservação de elementos e lembranças que remetem à sua origem.
Um hotel em torno do qual a cidade cresceu

Um dos aspectos mais simbólicos desses 50 anos é observar o que aconteceu fora dos muros do hotel.
O Calhau de 1976 pouco se parece com o atual. A cidade avançou em direção à orla, novas avenidas surgiram, bairros cresceram e a região se transformou em uma das áreas mais valorizadas de São Luís.
O hotel acompanhou essa transformação.
Durante a celebração, depoimentos recuperaram a surpresa provocada pelo lançamento da pedra fundamental e pela construção de um empreendimento daquela dimensão em uma região então marcada pela areia.
Um dos relatos de Bruno Duailibe, lembrou que o pai, engenheiro civil, Alóisio Duailibe (In Memoriam), que vivia em Natal, foi destacado para trabalhar como engenheiro-chefe da obra. A construção acabou fazendo com que a família estabelecesse morada em São Luís.

Outros convidados recordaram eventos empresariais realizados em seus salões, momentos vividos durante a adolescência e até casamentos celebrados no hotel, onde começariam histórias familiares que permanecem décadas depois.
Houve ainda quem contasse que passava diante do antigo Quatro Rodas sonhando em trabalhar ali e que, depois de conseguir uma oportunidade, permaneceu profissionalmente ligado ao empreendimento.
São histórias diferentes, mas que convergem para a mesma constatação: durante 50 anos, milhares de pessoas não apenas passaram pelo hotel. Viveram parte de suas histórias dentro dele.
O desafio de preservar sem parar no tempo

Para Jacira Haickel, diretora executiva do Blue Tree Premium São Luís, estar à frente de um empreendimento com tamanha carga histórica provoca sentimentos que vão do orgulho à responsabilidade.
“É um misto de orgulho e uma responsabilidade grande cuidar disso aqui, que é um legado da cidade de São Luís”, afirmou.
Ela não demonstra incômodo quando alguém ainda se refere ao prédio como o antigo Quatro Rodas. Ao contrário, entende essa lembrança como reconhecimento da força alcançada pelo empreendimento desde sua origem.
“Eu fico feliz quando alguém diz que é o antigo Quatro Rodas, porque é isso. A gente busca ter o mesmo padrão e a mesma excelência que o Quatro Rodas oferecia 50 anos atrás.”
O desafio, segundo a diretora executiva, é modernizar sem apagar os vínculos com o passado.
O hotel passou por processos de renovação e retrofit, ao mesmo tempo em que procurou preservar elementos históricos. Jacira cita a fonte, recentemente revitalizada, a escadaria que mantém a madeira original e outros componentes que ajudam a contar a história do prédio.
“É tentar, ao mesmo tempo, se modernizar para não ficar para trás, mas mantendo essa tradição, essa história”, explicou.
De olho no novo momento do turismo maranhense
Ao olhar para o futuro, Jacira também relaciona o papel do hotel ao crescimento da atividade turística no Maranhão.

Para ela, especialmente na última década, São Luís e o estado passaram por transformações importantes, enquanto destinos maranhenses conquistaram maior projeção nacional e internacional.
Os Lençóis Maranhenses são um exemplo desse movimento e, na avaliação da diretora, São Luís precisa aproveitar esse fluxo para aumentar a permanência dos visitantes na capital.
“São Luís tem que estar pronta para receber esses turistas que vêm do mundo todo e fazer com que eles permaneçam algum tempo na cidade e não só vão direto para os Lençóis”, destacou.
O desafio é fazer com que esses visitantes conheçam a capital, tenham uma boa experiência e contribuam para ampliar a divulgação do destino.
Chieko Aoki: “Esse hotel tem alma”

Um dos momentos marcantes da comemoração foi a manifestação da presidente da Blue Tree Hotels, Chieko Aoki, que fez uma homenagem especial a Jacira Haickel.
Emocionada, Chieko destacou que hotelaria não se resume a administrar instalações, apartamentos ou serviços. Para ela, a essência da atividade está no cuidado com as pessoas.
“Cuidar de hotel, não digo que é fácil, mas cuidar de pessoas que passam pelo hotel é uma escola.”
Chieko também chamou atenção para a forma como Jacira reconheceu pessoas que participaram da história do empreendimento muito antes da chegada da atual gestão.

Na avaliação da presidente da Blue Tree, é justamente essa capacidade de preservar vínculos humanos que diferencia um empreendimento tecnicamente bem estruturado de um hotel capaz de construir identidade.
“O empreendimento melhorou, foi renovado, uma série de coisas. Mas eu conheço empreendimentos belíssimos que não têm essa alma.”
Ao final de sua fala, Chieko fez um reconhecimento enfático à diretora executiva.
“Eu tenho muito orgulho dela e vou falar dela em todos os meus encontros com a hotelaria, porque ela merece ser homenageada como a melhor hoteleira do Brasil.”
Mais de 100 pessoas fazem a casa funcionar

Em seu pronunciamento, Jacira Haickel reservou um momento especial para os colaboradores.
Falou de quem chega antes de o sol nascer, de quem prepara os apartamentos mesmo sabendo que o hóspede talvez jamais perceba todos os detalhes daquele trabalho e dos profissionais que aprendem a reconhecer e acolher quem chega.
“Sem eles, isso aqui seria só concreto com uma vista linda”, resumiu.
A diretora fez questão de chamar integrantes da equipe pelo nome e estendeu o agradecimento aos hóspedes, clientes, sócios e investidores que acreditaram no empreendimento durante suas diferentes fases.

Afinal, um hotel não constrói 50 anos de história apenas com concreto, quartos ou grandes salões.
Foram as pessoas que transformaram seus espaços em cenários de casamentos, formaturas, aniversários, reuniões que decidiram negócios, encontros familiares e fins de semana que se tornaram lembranças.
“Vocês não vieram só se hospedar. Vocês viveram aqui. É isso que transformou um prédio em patrimônio de uma cidade”, declarou Jacira.
Uma mensagem para quem estiver aqui nos 75 anos

Em um dos momentos mais simbólicos da noite, Jacira decidiu falar para alguém que não estava presente e que provavelmente nem conhece: a pessoa que estará à frente do hotel daqui a 25 anos, quando o prédio completar 75 anos.
A mensagem funcionou como uma espécie de passagem de bastão entre gerações.
“Você não me conhece, mas eu estive aqui”, começou.
Depois, lembrou que nenhuma gestão é dona definitiva de uma história construída durante tantas décadas.

“Este prédio já estava aqui antes de mim e continuará depois de mim. É um empréstimo. A única coisa que eu posso fazer, enquanto ele estiver comigo, é te entregar melhor do que eu recebi.”
E deixou ao futuro gestor uma recomendação que talvez sintetize toda a celebração:
“Cuide bem dele. Este prédio pertence a São Luís muito antes de pertencer a qualquer um de nós, porque prédio sem gente é só parede. E esta casa está viva.”
Meio século olhando para São Luís

Cinquenta anos separam o Hotel Quatro Rodas de 1976 do atual Blue Tree Premium São Luís.
Nesse intervalo, mudaram a cidade, a hotelaria, os hóspedes, as formas de viajar e as bandeiras que administraram o empreendimento. O próprio Calhau se transformou radicalmente.
Mas o edifício permaneceu.
A primeira página amarelada de O Estado do Maranhão, preservada dentro do hotel, é uma espécie de certidão de nascimento dessa trajetória. A manchete “Quatro Rodas inaugura hoje”, publicada em 31 de julho de 1976, anunciava naquele momento apenas o começo de uma história cujo alcance ninguém poderia prever.
Meio século depois, a festa realizada em 18 de agosto de 2026 mostrou que o maior patrimônio construído ali talvez não possa ser medido em apartamentos, investimentos ou estrutura física.
Está nas lembranças de quem casou, trabalhou, comemorou, realizou negócios, recebeu amigos, hospedou-se ou simplesmente acompanhou aquele prédio fazer parte da paisagem da cidade.
Do Quatro Rodas ao Blue Tree Premium São Luís, são 50 anos de hotelaria, mas também 50 anos de histórias de pessoas. E são elas que explicam por que aquele prédio no Calhau deixou de ser apenas um hotel para se tornar parte da memória de São Luís.








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