Entre estradas, jangadas e camarões: o que Fortaleza ensinou sobre turismo ao Maranhão
- reginaldorodrigues3
- 22 de mai.
- 4 min de leitura
Viagem ao Salão do Turismo revelou contrastes na infraestrutura, na economia criativa e na forma de transformar experiências em desenvolvimento.

Por ocasião do Salão do Turismo, realizado nos dias 7, 8 e 9 de maio, em Fortaleza (CE), tive a oportunidade de percorrer por terra o trajeto entre São Luís e a capital cearense. E confesso: além dos debates, experiências e discussões apresentadas no evento, uma outra realidade chamou fortemente minha atenção, a forma como o Ceará parece ter entendido o turismo em sua essência.
A experiência começou ainda na estrada

Ao sair do Maranhão, o cenário encontrado ao longo de boa parte do percurso reforça uma reclamação antiga de moradores, motoristas e turistas: rodovias sucateadas, sinalização precária, trechos esburacados e, em muitos casos, ausência de acostamento. Uma realidade preocupante, especialmente para um estado que aposta no turismo como ferramenta de desenvolvimento.
Ao entrar no Piauí, a percepção já muda. As condições das vias melhoram. Mas ao cruzar a divisa do Ceará a diferença salta aos olhos.

As rodovias estaduais cearenses, equivalentes às nossas MAs, impressionam pela estrutura. Grande parte do trecho percorrido até Fortaleza é duplicado, com excelente sinalização horizontal e vertical, acostamentos adequados, ciclovias e infraestrutura que transmite segurança e organização.
O contraste é inevitável.
Enquanto o Maranhão debate novos roteiros, polos turísticos e fortalecimento de destinos, estados vizinhos parecem ter compreendido algo essencial: turismo também começa no caminho.

Não adianta promover Lençóis Maranhenses, Rota das Emoções, Chapada das Mesas ou tantos outros destinos extraordinários quando a porta de entrada muitas vezes é marcada por insegurança, buracos e dificuldades de acesso.
Mas a maior surpresa ainda estava por vir.
Fiquei hospedado na região do Mucuripe, à beira-mar, em Fortaleza. Ao lado do hotel havia um tradicional mercado de peixes. Um espaço simples, mas extremamente vivo, pulsante e repleto de turistas.

E ali tive uma verdadeira aula prática sobre turismo e economia criativa.
No mercado, dezenas de bancas comercializam peixes, lagostas, camarões, ostras e frutos do mar dos mais variados tamanhos. Tudo fresco, limpo e pronto para o consumo. Mas o diferencial vai muito além da venda do pescado.

O turista escolhe aquilo que deseja consumir e, logo ao lado, encontra bares e restaurantes preparados para transformar aquela compra em refeição. Você paga apenas pelo preparo e escolhe os acompanhamentos.
Enquanto aguarda, a experiência continua acontecendo.
Você pede um suco, uma cerveja, um refrigerante. Surge alguém oferecendo cocadas, doces regionais e artesanato. Outro passa vendendo lembranças e souvenirs. Em seguida aparece alguém oferecendo massagem. Mais adiante um músico canta canções regionais.

E assim, quase sem perceber, a economia inteira começa a girar.
Ali não se vende apenas peixe.
Ali circula dinheiro.
Ali circula oportunidade.
Ali o turismo acontece em sua essência.
Outro detalhe chamou ainda mais minha atenção: os preços.
Além da variedade e da qualidade dos produtos, os valores eram extremamente atrativos. Daqueles preços que fazem a pessoa "comer com os olhos" antes mesmo de sentar à mesa.

Camarões graúdos, lagostas, peixes e outros frutos do mar eram apresentados com orgulho pelos vendedores. E parecia existir uma preocupação genuína em mostrar o melhor produto possível. Havia acolhimento e a sensação de preço justo.
A experiência acabou virando quase um experimento espontâneo entre nosso grupo.
Éramos cerca de dez pessoas. Um comprou um quilo de camarão, outro escolheu um peixe grande, outro trouxe mais camarão e, em poucos minutos, nossa mesa estava tomada por enormes porções de comida.

Resultado: três grandes porções de camarão frito, um peixe enorme preparado e uma fartura que mal conseguimos consumir.
Não conseguimos comer nem a metade.
E talvez o mais surpreendente: pagamos um valor extremamente justo.
Foi nesse momento que comecei a fazer outra reflexão inevitável.

O Maranhão possui o segundo maior litoral do Brasil. Possui rios, baías, uma extensa atividade pesqueira e uma enorme diversidade de pescado. Ainda assim, em muitos lugares, consumir peixe ou frutos do mar por aqui pesa muito mais no bolso.
Talvez a discussão não seja apenas sobre preços.
Talvez seja uma discussão sobre cadeia produtiva, acesso, comercialização, estímulo econômico e visão.

Porque o Ceará parece ter entendido algo simples: quando o produto circula mais, mais gente ganha.
Ganha o pescador.
Ganha o comerciante.
Ganha o restaurante.
Ganha quem vende artesanato.
Ganha o músico.
Ganha o ambulante.
E ganha o turista, que leva consigo uma experiência inesquecível.
E havia ainda algo que tornava tudo ainda mais especial: o cenário.
Tudo acontecia ali, praticamente ao lado do mar.

O turista fazia sua refeição ouvindo o som das ondas quebrando na orla, sentindo a brisa, observando as inúmeras embarcações pesqueiras e contemplando uma das paisagens mais tradicionais do litoral cearense: as jangadas do Mucuripe, com suas velas desenhando o horizonte.
Porque ali não se vende apenas camarão, peixe ou lagosta.
Vende-se atmosfera.
Vende-se memória.
Vende-se experiência.
E talvez esteja justamente aí uma das maiores lições dessa viagem.
O Ceará parece ter entendido que turismo não é apenas mostrar uma paisagem bonita. É transformar cada detalhe, a estrada, a gastronomia, a cultura, o mar, a música, as pessoas e até o tempo de espera, em algo capaz de encantar, emocionar e movimentar a economia.

Voltei para o Maranhão admirado, mas também pensativo.
Porque potencial nós temos.
Talvez esteja faltando apenas conectar melhor nossas riquezas e compreender que turismo não é gasto.
Turismo é investimento.
E investimento bem feito faz o dinheiro circular para todos.








Muito boa essa reflexão sobre o turismo do Maranhão. Aqui mesmo na Chapada das Mesas até que a BR 230 tem acostamento, mas o asfalto está praticamente todo remendado, aparecendo buracos constateme devido ao tráfego de caminhão carregando de grão. Rodovias esburacadas dão muito prejuízo em pneus que corta, numa suspensão que danifica, podendo levar o motorista a causar acidente e muitas vezes até desmotiva o turista de viajar aos destinos desejados. Se a engrenagem do turismo não funcionar, alguém sai perdendo, é a lógica.