Escala 6x1: setor produtivo alerta para aumento de custos e impacto no turismo
- reginaldorodrigues3
- 31 de ago.
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Em encontro da FBHA e SEHAMA, em São Luís, dirigentes do comércio, indústria, hotelaria e alimentação defenderam negociação por setor e advertiram que mudanças sem considerar as peculiaridades das atividades podem chegar ao bolso do consumidor

O debate sobre o fim da escala de trabalho 6x1 entrou com força na pauta do setor produtivo nesta segunda-feira, 31 de agosto, em São Luís. Durante um almoço institucional da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA) e do Sindicato Empresarial de Hospedagem e Alimentação do Maranhão (SEHAMA), empresários e dirigentes de entidades manifestaram preocupação com os possíveis efeitos de uma mudança generalizada na jornada de trabalho.
Realizado durante almoço no Restaurante Escola do Senac, no Centro Histórico de São Luís, o encontro reuniu membros das diretorias da FBHA e do SEHAMA, representantes da Fecomércio-MA, FIEMA, lideranças sindicais e outros convidados.
No centro das discussões está uma questão que ganha dimensão ainda maior em atividades que não podem simplesmente fechar aos fins de semana: como proporcionar melhores condições e qualidade de vida ao trabalhador sem comprometer empregos, competitividade e sustentabilidade financeira das empresas? E, se os custos aumentarem, quem pagará essa conta?

O Cazumbá ouviu quatro importantes lideranças empresariais: Maurício Feijó, presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Maranhão (Fecomércio-MA); Edilson Baldez, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Maranhão (FIEMA); Alexandre Sampaio, presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação (FBHA); e Nonato Luz, presidente do SEHAMA.
Embora com diferentes abordagens, as manifestações convergiram principalmente na defesa de maior diálogo e na preocupação com os efeitos econômicos de uma alteração que desconsidere as peculiaridades de cada atividade.
Fecomércio-MA defende negociação coletiva
Para Maurício Feijó, presidente da Fecomércio-MA, a discussão provoca “grande preocupação”, especialmente pela possibilidade de uma regra geral atingir atividades que possuem dinâmicas completamente diferentes.
“Cada segmento tem suas peculiaridades, não se pode fazer generalizado.”

Na avaliação de Feijó, a melhor saída passa pelo diálogo direto entre trabalhadores e empregadores, por meio das convenções e dos acordos coletivos.
“A convenção coletiva, o acordo coletivo entre patrão e empregado. Esse aqui é o caminho certo.”
O dirigente citou atividades como supermercados, farmácias e outros serviços que precisam manter operações em períodos diferentes daqueles de empresas que funcionam apenas em dias úteis.
Para ele, a redução dos dias trabalhados poderá exigir reorganização das equipes e, dependendo da atividade, contratação ou utilização de mais trabalhadores para garantir o funcionamento. Isso, argumenta, significaria elevação dos custos.
Questionado pelo Cazumbá sobre quem acabaria pagando essa conta, Feijó respondeu:
“O empresário vai repassar, não tem jeito.”
O presidente da Fecomércio-MA também defendeu que a discussão sobre qualidade de vida considere a renda dos trabalhadores.
“Não é deixar de trabalhar que você vai ter qualidade de vida. A falta de qualidade de vida no Brasil é falta de um bom salário.”
Para ele, portanto, o debate não deveria ser reduzido à quantidade de dias trabalhados, mas incorporar remuneração, produtividade, características de cada atividade e negociação coletiva.
FIEMA pede discussão mais aprofundada
O presidente da FIEMA, Edilson Baldez, também considera preocupante uma mudança feita sem uma avaliação detalhada das consequências para diferentes atividades econômicas.
Segundo ele, a questão não é simplesmente ser contra ou a favor da redução da jornada.
“Cada um age e trabalha de uma maneira diferente. Então nós não podemos, de uma maneira rápida, sem uma discussão mais profunda, aprovar uma medida desse tipo.”
Baldez destacou que mesmo dentro da indústria existem segmentos com jornadas e modelos operacionais distintos. Por isso, segundo ele, a FIEMA ainda avalia as possíveis consequências de uma eventual mudança.
O dirigente afirmou esperar que o Congresso considere os impactos tanto para empresas quanto para trabalhadores antes de uma decisão definitiva.
Ao ser questionado pelo Cazumbá sobre o turismo e sobre quem absorveria eventual aumento de custos, empresas, trabalhadores ou consumidores — Baldez foi enfático:
“A conta final quem paga é a população, quem paga é o consumidor.”
Segundo o presidente da FIEMA, custos adicionais tendem a ser incorporados aos preços.
“Os preços vão subir e, como você sabe, hoje tem caído muito a capacidade de compra de todos nós.”
Alexandre Sampaio: “O turismo vai ser muito afetado”
Na hotelaria e na alimentação, a discussão ganha características ainda mais específicas. Hotéis funcionam 24 horas por dia, enquanto bares e restaurantes têm justamente nos fins de semana e feriados alguns de seus períodos de maior movimento.
O presidente da FBHA, Alexandre Sampaio, afirmou que a entidade participa de uma campanha para que a discussão seja adiada para depois do período eleitoral, de forma que, na avaliação da Federação, o tema possa ser tratado com maior profundidade.
“O turismo vai ser muito afetado pela implantação da 6x1 ou da 5x2, como queira, porque todos nós trabalhamos intensamente, inclusive no final de semana.”
Sampaio chamou atenção ainda para um componente particular da hotelaria, bares e restaurantes: gorjetas e taxas de serviço, que representam remuneração adicional para muitos trabalhadores.
Na avaliação do dirigente, qualquer mudança precisa levar em consideração também os possíveis reflexos sobre essa renda.
“Temos que discutir isso, muitas peculiaridades do setor de turismo para esse processo.”
Convenção coletiva como caminho
Assim como Feijó, Alexandre Sampaio defendeu que as soluções sejam construídas principalmente por meio da negociação coletiva.
“Nada melhor que o entendimento entre capital e trabalho, entre o patrão e o seu colaborador, para nós chegarmos a um consenso.”
O presidente da FBHA acrescentou que também seria necessário discutir eventuais medidas de compensação caso uma mudança provoque elevação significativa dos custos empresariais. Segundo ele, o objetivo seria evitar que todo o impacto recaia sobre os preços.
Sampaio também defendeu que modelos mais flexíveis de remuneração por hora entrem na discussão, citando experiências internacionais e estabelecendo uma comparação com alguns aspectos do trabalho intermitente.
Mas, quando perguntado diretamente pelo Cazumbá sobre quem pagaria a conta caso o custo operacional aumentasse, respondeu:
“Inevitavelmente vai ser repassado.”
Para ele, o efeito poderia chegar às diárias, alimentação e demais serviços turísticos.
“Assim como o comércio vai repassar e nós vamos ter mais inflação, também os serviços turísticos vão subir.”
Sampaio ponderou que turistas estrangeiros, beneficiados pela força de suas moedas em relação ao real, poderiam sentir menos esse impacto, mas fez um alerta:
“O turismo brasileiro vai sofrer.”
SEHAMA também se posiciona
Representando diretamente os empresários de hospedagem e alimentação do Maranhão, o presidente do SEHAMA, Nonato Luz, afirmou que questões envolvendo emprego e organização do trabalho precisam ser analisadas em contexto mais amplo.
Questionado sobre a possibilidade de hotéis, bares e restaurantes absorverem uma alteração da jornada sem repassar custos ou reduzir postos de trabalho, Luz avaliou que mudanças e avanços fazem parte da dinâmica econômica, mas demonstrou oposição à proposta nos moldes em que o debate vem sendo conduzido.
Ao falar especificamente sobre uma eventual perda de competitividade do turismo maranhense, afirmou que uma mudança dessa natureza alcançaria todos os setores.
“Essa mudança de horário atinge, de um modo geral, todo mundo.”
Nonato Luz também relacionou o momento da discussão ao calendário eleitoral e afirmou esperar que a mudança não seja aprovada nos termos atualmente debatidos.
No turismo, a matemática é diferente
O debate ganha contornos particulares quando transportado para o turismo.
Enquanto determinadas empresas conseguem organizar sua produção ou atendimento em cinco dias úteis, um hotel recebe hóspedes sete dias por semana. Restaurantes, bares e empreendimentos de lazer costumam registrar justamente aos sábados, domingos e feriados uma parcela importante de seu faturamento.
A atividade turística também envolve transporte, receptivos, guias, agências, eventos e uma extensa cadeia de fornecedores.
Por isso, para as entidades empresariais ouvidas pelo Cazumbá, uma eventual alteração precisa considerar essas especificidades e não apenas estabelecer uma regra uniforme para atividades com realidades distintas.
Entre qualidade de vida, emprego e competitividade
O debate sobre a escala 6x1 não pode, entretanto, ser resumido apenas à preocupação empresarial com custos.
Do outro lado estão trabalhadores que defendem mais tempo para descanso, lazer, convivência familiar e recuperação física e mental. É justamente aí que está o ponto central de uma discussão que envolve interesses legítimos, mas também consequências econômicas que precisam ser mensuradas.
As entrevistas realizadas pelo Cazumbá durante o encontro mostram que o setor empresarial maranhense não fecha necessariamente as portas para discutir novos modelos de jornada. A reivindicação predominante é que mudanças não sejam impostas de maneira uniforme e que convenções e acordos coletivos tenham papel relevante na construção das soluções.
A posição também evidencia outra preocupação: o preço final dessa transformação.
Fecomércio-MA, FIEMA e FBHA convergem na avaliação de que, se uma nova organização das jornadas elevar significativamente os custos das empresas, pelo menos parte desse impacto tende a ser incorporada aos preços.
No turismo, isso significa que a discussão pode sair das relações entre patrões e empregados e chegar diretamente à diária do hotel, à conta do restaurante, ao passeio turístico e a outros serviços consumidos pelo visitante.
O desafio, portanto, é maior do que decidir entre 6x1 ou 5x2.
É encontrar um modelo capaz de melhorar as condições de vida e trabalho sem provocar efeitos colaterais que terminem atingindo o próprio trabalhador por meio da inflação, da redução de oportunidades de emprego ou do encarecimento dos serviços.
E foi justamente essa a questão que permaneceu depois do encontro no Centro Histórico de São Luís: é possível dar mais qualidade de vida ao trabalhador, preservar empregos e competitividade e, ao mesmo tempo, impedir que a conta termine na mesa, ou na diária, do consumidor?
É essa equação que trabalhadores, empresários e Congresso Nacional terão de responder.








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