História do domingo: Amor de verão
- reginaldorodrigues3
- 4 de jan.
- 4 min de leitura
Reencontros
“Nem todo fim era fim. alguns eram só intervalo.”
Impossível ler essa edição sem antes escutar esta música. 🥹
Velha infância


A música “Velha Infância”, do grupo Tribalistas, é como um lugar onde o tempo desacelera. Nostálgica para muitos, a letra fala de um amor que não pesa, não exige performance nem tradução.
Um amor que simplesmente acontece — como respirar, como acordar pensando em alguém, como ir dormir com a presença do outro, mesmo quando ele não está ali.
• Logo no início, o amor aparece como sonho, mas não é um sonho distante: é íntimo, cotidiano e que atravessa o dia inteiro.
Pensar no outro “desde o amanhecer até quando me deito” transforma o amor em hábito. Não é obsessão; é constância. É a ideia de que amar alguém é carregar essa pessoa nos pequenos silêncios do dia.
E quando a letra diz “a gente não se cansa de ser criança”, ela fala não da idade, mas de estado de espírito. Ser criança aqui é poder existir sem cálculo, sem medo do julgamento.
É rir alto, cantar errado e dançar sem saber os passos — e não sentir vergonha disso, porque o outro não observa, mas acompanha.
A velha infância, portanto, não é algo que ficou no passado, mas foi guardada com cuidado e reencontrada no amor.
Como se, ao estar com a pessoa amada, pudéssemos acessar uma versão de nós mesmos que o mundo adulto tentou silenciar: mais leve, curiosa e inteira.
A “velha infância” não ficou para trás; ela sobrevive onde existe afeto suficiente para que a gente baixe a guarda. Amar, nesse sentido, não é voltar no tempo, é deixar de precisar se esconder.
Amor de verão
(Baseado em uma história real)

Tudo começou na praia de Xangri-lá, no Rio Grande do Sul. Tracy e Augusto ainda eram crianças quando se conheceram na rua, durante o verão.
Faziam parte de uma pequena trupe inseparável: Augusto e o irmão, Tracy, a irmã dela, um primo e uma amiga que vinha de Igrejinha. Eventualmente, outros se juntavam, mas aquele núcleo era o mais unido.
• Entre partidas de Cara a Cara e Banco Imobiliário, a amizade crescia sem esforço, como só acontece na infância.
Todo verão era marcado pela espera ansiosa da chegada de Dudi e Augusto, que vinham para a praia depois. Tracy lembra da expectativa, dos momentos em que se arrumavam para assistir ao futebol no fundo da casa deles.
Eram dias longos, cheios de risadas, descobertas e a sensação de que o mundo cabia naquele pedaço de areia.
Com a chegada da adolescência, porém, tudo mudou. A casa de praia foi vendida e, pouco a pouco, os encontros deixaram de existir. Apesar de todos morarem em Porto Alegre, era na praia que os laços se formavam.
Tracy chegou a escrever uma carta sugerindo um reencontro, mas nunca teve coragem de enviá-la. A vida seguiu.
Anos depois, em 2015, o passado resolveu bater à porta. A amiga de Igrejinha enviou uma mensagem no Facebook parabenizando Augusto, marcou todo mundo e propôs um reencontro da antiga turma da praia.
Ele estava se separando e voltando ao Brasil após período vivendo em Israel. Tracy também vivia um recomeço: estava divorciada e tinha um filho, assim como ele.
• O encontro foi marcado para o fim de outubro. Coincidiu com um jantar de primos, e a irmã de Tracy sugeriu que ela levasse alguém.
Quando Tracy disse que não tinha ninguém, veio a sugestão: chamar o Augusto. Tracy resistiu, brincou que ele podia estar careca ou até ser um psicopata, mas, após uma garrafa de vinho, tomou coragem e mandou a mensagem.
A resposta inicial foi fria: “Vou ver e te aviso.” No dia seguinte, porém, ele confirmou que iria e perguntou o que levar.
Tracy sugeriu um vinho chileno e ainda se ofereceu para irem juntos, já que ele estava recém-chegado à cidade. Augusto recusou, dizendo que se virava sozinho. Mais um balde de água de fria.
No dia do encontro, Tracy se atrasou por causa de uma aula de dança. A irmã também demorou, e Augusto acabou chegando primeiro. O dono do apartamento precisou sair, deixando Augusto sozinho.
Quando Tracy finalmente chegou, foi ele quem abriu a porta. Um “oi” simples, olhos verdes arregalados — e tudo mudou. A conexão foi imediata.
Entre lembranças, conversas e risadas, quando os outros chegaram, os dois já estavam próximos e íntimos, como se o tempo nunca tivesse passado. O vinho ajudou, mas não foi o responsável: havia algo maior ali.
No fim da noite, Augusto ofereceu-se para levá-la em casa. Orgulhosa, Tracy recusou. Mas, na despedida, veio o beijo. E, como se o destino resolvesse assinar aquele momento, começou a chover. Eles nunca mais pararam de se beijar.
• O 9 de outubro marcou o reencontro de duas almas que já se conheciam antes mesmo de entender o que era amor.
Vieram os cafés, as idas à praia, as gargalhadas, os vinhos e, claro, mais beijos. Em 2018, juntaram tudo: os gatos dela, os gatos dele, os filhos e os sonhos. Em 2021, durante uma viagem de carro pelo Brasil, Augusto a pediu em casamento.
No dia 5 de novembro de 2022, selaram a união cercados pelos amigos da praia — agora padrinhos —, amigos da vida e da família. A lua de mel não poderia ser em outro lugar: a praia, sempre ela.
Hoje, Tracy e Augusto são padrinhos da Olívia, filha daquele primo-amigo da praia. Colhem amoras no quintal de casa e sonham novos sonhos entre xícaras de café, taças de vinho ou uma boa cerveja artesanal.
Enfrentaram batalhas, dificuldades e imperfeições, como toda história real, mas seguem firmes, lembrando sempre a canção que marcou o início do namoro e que virou voto de casamento: “sinceramente você pode se abrir comigo”.
No último 9 de outubro, completaram-se dez anos desde o primeiro beijo — ainda com a mesma intensidade, carinho e amor.
É difícil duvidar do destino diante de uma história assim. Às vezes, o amor está do outro lado do mundo, apenas esperando o momento certo para voltar, brindar e ficar.
• O amor existe — e Tracy e Augusto sabem disso. Todos os dias, quando se olham entre risos e sorrisos, têm a certeza de que foram feitos um para o outro.
Ela quer envelhecer ao lado dele, sorrir eternamente, reviver a velha infância, brincar e dançar. Porque o riso dela é mais feliz com Augusto, seu melhor amigo e seu grande amor.
Texto e imagens: The stories/Reprodução












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