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História do domingo: Bom toda vida

Milagre dos encontros


“O amor é uma espécie de preconceito. como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse?


Para entrar no clima da história, a dica é dar o play nesse clássico aqui. 🖤


Uma espécie de preconceito


Ao dizer que “o amor é uma espécie de preconceito”, Bukowski imediatamente desloca a ideia de amor do ideal romântico para algo marcado por limitações, escolhas condicionadas e critérios pessoais.


• Amar, segundo ele, não é neutro nem absoluto; é sempre seletivo, filtrado pelo que nos é familiar, confortável ou necessário.


A ideia de que “a gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente” reforça que o amor está profundamente entrelaçado com a sobrevivência emocional.


Amamos não só a pessoa em si, mas o que ela representa para a nossa própria estabilidade, prazer ou segurança afetiva.


Para ele, amar não é apenas um ato de entrega ou devoção, mas também um exercício de escolha inevitavelmente condicionado: escolhemos aquilo que nos faz sentir bem, aquilo que preenche lacunas internas.


Então, surge a pergunta inquietante: “como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse?”


• Talvez seja impossível encontrar uma resposta — e talvez o milagre dos encontros esteja justamente aí.


Bukowski nos confronta com a contingência e a limitação da experiência humana, mostrando que o amor acontece dentro das circunstâncias aleatórias que a vida nos oferece.


Cada encontro é, por si só, uma escolha parcial, marcada pelo acaso, pelas oportunidades e pelas conexões que conseguimos perceber.


É nesse espaço entre o que poderia ter sido e o que realmente acontece que reside o milagre do amor: na imperfeição, na seleção involuntária e na singularidade de cada pessoa que cruzamos.


Amar alguém, então, é aceitar o que nos é apresentado e depender da conjunção única de encontros impossíveis de repetir. É se abrir para o desconhecido e deixar de buscar explicações.


Porque é nesse entrelace de acaso e escolha que o amor se revela: frágil, único e irrepetível. Como disse Roberto Freire: “quem começa a entender o amor, a explicá-lo, a qualificá-lo e quantificá-lo, já não está amando.”


Bom toda vida

(Baseado em uma história real)

Neusa estava noiva. Seu coração não batia mais forte, mas diziam que casamento era assim mesmo — palpitação no peito era coisa de adolescente. Ela acreditava — ou tentava acreditar.


Acostumada à cidade grande, foi para o interior a convite de uma amiga, Tereza. Quem sabe a mudança de ares não despertaria nela algum ânimo novo? Mal sabia que o destino, silencioso e certeiro, já a esperava.


Em sua primeira tarde na casa de Tereza, enquanto ajeitava a mala no quarto de hóspedes, Neusa olhou pela janela e viu um rapaz de camisa branca atravessando o quintal.


Não perguntou nada, mas sentiu. O coração, que até então parecia tão morno, deu um pequeno tropeço.


“Quem é aquele?”, arriscou em voz baixa.


Tereza sorriu. “Meu irmão, Geraldo.”


E completou com a naturalidade de quem junta duas peças de um quebra-cabeça: “Vocês deviam conversar… Afinal, os dois estão noivos. Sempre tem umas figurinhas para trocar.”


A conversa foi breve, mas intensa o suficiente para que todas as frases que Neusa conhecia dos romances, de repente, fizessem sentido. Não era exagero literário. Era real.


• Naquela noite, a cidade inteira se preparava para o baile do salão, o evento mais esperado da semana.


Neusa se arrumava diante do espelho quando seu tio a interrompeu: “Noiva não vai para o baile.” Ela respirou fundo e respondeu: “Ah, é? Então, está resolvido.”


Escreveu uma carta ao noivo e, com poucas linhas, desfez o compromisso que já não deveria ter começado. Dobrou o papel com firmeza e, sem olhar para trás, tomou a decisão mais ousada da vida.


Todos a chamaram de louca. Mas o que ninguém sabia é que ela só pensava na imagem de Geraldo com a camisa branca na janela. Às vezes, basta um instante, um encontro, para que o mundo mude de direção.


Sabendo da novidade, Geraldo mandou um recado, pedindo para que Neusa se encontrasse com ele no baile.


• Ela foi impositiva: “Se ele quiser me ver, que venha me buscar. Que história é essa de marcar encontro lá?” E ele foi.


Bukowski dizia que o amor é uma espécie de preconceito. Afinal, “como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse?


Talvez a resposta não exista. Talvez o segredo esteja justamente na impossibilidade de explicação.


Porque o amor, às vezes, nasce no acaso, sem querer. Ou no milagre. E foi assim com Neusa e Geraldo: um olhar pela janela foi o suficiente para que tudo se transformasse.


No baile, ele a encontrou — e naquela mesma noite percebeu que também precisava reescrever sua história. Terminou o noivado e, pouco depois, os dois começaram a namorar.


Se corresponderam por cartas durante um ano: ela escrevendo da cidade grande; ele do interior.


• Palavras atravessavam distâncias, e cada envelope trazia a certeza de que estavam, aos poucos, construindo uma vida em comum.


Até que o “sim, chegou”. Quando Neusa entrou na igreja, encontrou os olhos de Geraldo no altar e percebeu que todo o resto era detalhe. Não havia dúvida: era com ele que queria dividir a vida.


Mais de seis décadas se passaram desde então. Hoje, Neusa e Geraldo continuam juntos. São mais de 60 anos de casamento, 12 filhos, 18 netos e 5 bisnetos.


A vida não é tão agitada quanto antigamente, mas os dois continuam se escolhendo todos os dias. E assim vão caminhando, na certeza de um amor que não é bom todo dia, mas é bom toda a vida.


Quem escreve esta newsletter é uma das netas, Ana Luísa — e, por isso, esta foi a primeira história que apareceu aqui.


Agora, a Neusa não consegue mais lembrar de todos os filhos, netos e bisnetos. O Alzheimer levou parte da memória, embaralhou nomes, apagou rostos e confundiu tempos.


Mas há algo que nem a doença conseguiu arrancar: o carinho que todos ainda têm por ela.


Neusa continua sendo o centro da família: cercada de mãos que a acolhem, vozes que a chamam com doçura e olhares que insistem em lembrá-la, todos os dias, de que é profundamente amada.


Texto e imagens: The stories/Reprodução


 
 
 

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