História do domingo: Mas o maior deles é o amor
- reginaldorodrigues3
- 16 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Você sabe dançar?
“O casamento é como uma dança: por mais que o casal dê um passo pra cada lado, as mãos nunca se soltam.”
Não comece a ler a edição antes de dar play nesta música aqui.
Não sei dançar


Esta música da Marina Lima é uma metáfora delicada sobre o amor como dança — e sobre o desencontro de ritmos.
Amar, aqui, é um convite para mover-se junto, para encontrar o compasso do outro sem se perder do próprio. Mas, o eu lírico confessa: “eu não sei dançar tão devagar pra te acompanhar”.
• É como se dissesse que sente demais, que o corpo pulsa mais rápido do que o amor do outro permite.
Há uma dor suave nisso — e não é a do desamor, mas a de quem ama intensamente, num tempo em que a maioria só ensaia os passos.
Marina fala desse descompasso com uma ternura triste: de um lado, o desejo que explode e as paixões que acendem os olhos; do outro, a impossibilidade de transformar tudo isso em permanência.
“Solidão com vista pro mar” é o retrato perfeito desse sentimento: a solidão que não é vazia, mas cheia de beleza, lembranças e tudo aquilo que poderia ter sido.
Usando a dança como metáfora, o eu lírico compreende que há pessoas que vivem o amor na superfície, enquanto outras mergulham, mesmo sabendo que é profundo e que pode doer.
Marina canta de um lugar de intensidade rara, de quem não se contenta com o raso, mas também já entendeu que nem todos sabem dançar no mesmo ritmo.
E o mais bonito é que ela não transforma isso em amargura: apenas aceita. Porque, às vezes, amar é isso: reconhecer o próprio tempo e seguir dançando — ainda que sozinha.
Mas o maior deles é o amor
(Baseado em uma história real)

Casamentos sempre emocionaram Giuliana. Inclusive, ela se lembra nitidamente do primeiro em que foi como acompanhante de Nuno — na época, apenas seu namorado.
O relacionamento ainda era recente, e aquele convite parecia um passo importante. Para ela, era um sinal de compromisso; para ele, segundo confessaria depois, foi um teste. Onze anos depois, o resultado está aí: Giuliana passou.
Combinaram de se encontrar diretamente na igreja. Mas, assim que ela chegou à Nossa Senhora do Brasil, recebeu uma mensagem: Nuno se atrasaria. Sem conhecer ninguém, escolheu um assento discreto no fundo e esperou.
Pouco depois, o coral anunciou o início da cerimônia e a marcha nupcial encheu o espaço. Bastaram os primeiros acordes para que seus olhos marejassem, tomada pela emoção — ainda que não conhecesse os noivos.
O padre começou a falar, saudando o casal com carinho. Mas os nomes que pronunciava não eram aqueles que Nuno havia mencionado.
• Giuliana então percebeu: estava no casamento errado. Chorara por desconhecidos que nem sequer teria a chance de conhecer.
Trinta minutos depois, a cerimônia se encerrava. A igreja esvaziou-se, exceto por ela — ainda sentada, rindo de si mesma e aguardando Nuno, que chegou com o ar atrapalhado de quem confundira o horário.
Uma hora depois, ela se emocionava novamente, agora sim, no casamento certo — e, enfim, poderia brindar aos noivos verdadeiros com uma taça de champanhe na festa.
Anos se passaram e, na semana anterior, Giuliana viveu mais uma dessas cenas que ficam guardadas na memória: o casamento de uma amiga querida, em uma fazenda linda banhada pela luz do fim de tarde.
A noiva, deslumbrante, parecia uma princesa da vida real caminhando em direção ao seu amor. Giuliana, emocionada, riscou mais um item de sua “to-do list casamenteira”: chorar de felicidade por amor alheio.
Durante a cerimônia, o padre disse uma frase simples, mas que ficou ecoando na cabeça dela por dias:

Giuliana entendeu o motivo de ter se identificado tanto com aquelas palavras. Nos últimos três anos, sua vida e a de Nuno havia mudado de ritmo duas vezes.
Primeiro, quando se mudaram para os Estados Unidos; depois, quando decidiram voltar ao Brasil. Em cada uma dessas fases, um deles assumiu a condução da dança.
• Na ida para Nova York, foi Giuliana quem liderou o passo. Chegou primeiro, desbravando a cidade que nunca dorme, enquanto seu trabalho ditava o compasso daquela nova vida.
• De volta a São Paulo, foi a vez de Nuno conduzir. E ela, de bom grado, deixou-se guiar — mesmo que, às vezes, ainda se sinta na ponta dos pés sobre os sapatos dele, tentando acompanhar o ritmo.
Mas o essencial permaneceu o mesmo: nesse tango alucinado que foi a vida a dois nos últimos 36 meses, as mãos nunca se soltaram.
Curiosamente, o único casamento em que Giuliana não chorou foi o seu, em 2021. Ela não sabe ao certo o que conteve suas lágrimas na cerimônia, mas, com certeza, falta de emoção não foi.
Na verdade, Giuliana acredita que estava feliz demais para deixar que qualquer coisa embaçasse a visão da sua própria história de amor.
Hoje, com a companhia de Lola — a cachorrinha que chegou em 2020 e completou a família — Giuliana e Nuno vivem o melhor momento do relacionamento.
Às vezes, ao som de uma música qualquer que toca no rádio da sala, ele estende a mão para ela. Giuliana aceita o convite, os pés se encontram e Lola observa atenta, girando o rabo como se também marcasse o compasso.
E, ali, no meio da sala, entre risadas, passos trocados e pequenas distrações, os dois seguem dançando — exatamente como o padre dissera um dia: de mãos firmes, sem jamais se soltarem.
Talvez seja por isso que aquela passagem lida pela irmã do noivo, no casamento da amiga, tenha ficado gravada na memória de Giuliana. Afinal, no fim, nenhuma explicação sobre o amor é mais verdadeira do que essa:
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, nada seria.
[...] Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor.
Mas o maior deles é o amor.”
— Coríntios, capítulo 13
Texto e imagens: The stories/Reprodução












Comentários