História do domingo: Nem sempre é bom, nem sempre é ruim
- reginaldorodrigues3
- 12 de out. de 2025
- 5 min de leitura
Caminhando
“Nem sempre é bom, nem sempre é ruim. desconheço a balança que mede isso. é o que é, aceito, rejeito, mas não escolho mais tirar de mim esse amor entranhado.”
Para entrar no clima da história, a dica é dar o play neste clássico aqui. 🕺
Dias Perfeitos

Todos os dias, Hirayama acorda, compra um café gelado e dirige até o trabalho, no qual é responsável por limpar banheiros públicos na limpíssima Tóquio, capital do Japão. Na hora do almoço, ele come um sanduíche sentado num banco de pedra e aproveita para fotografar as árvores.
• Todos os dias, o mesmo almoço, o mesmo banco, as mesmas pessoas e as mesmas árvores.
A sinopse do filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2024, pode parecer um tanto quanto monótona, mas é nesse cenário contemplativo e repetitivo que a mágica acontece.
Sem grandes acontecimentos, reviravoltas ou discursos, Wim Wenders transforma o cotidiano em contemplação.
Em um mundo em que tudo precisa ser produtivo, intenso e compartilhável, Hirayama parece viver em outra frequência: a do presente.
Com uma fotografia solar e brilhante, tudo que vemos na tela é bonito. Mas isso não acontece pela beleza do entorno, mas pelo olhar do personagem, que consegue ficar totalmente presente em tudo que ele realiza.
• Nesse contexto, o filme mostra que o sentido da vida talvez não esteja em mudar o mundo, mas, sim, em enxergá-lo.
Ao perceber como a luz atravessa uma árvore, como um som familiar acalma. Limpando um banheiro, ouvindo uma boa música ou escolhendo um livro no sebo, Hirayama mostra como o trivial pode ser interessante.
Em um curto período de 24 horas, infinitos acontecimentos nos passam despercebidos. Coisas boas, ruins, fáceis de perder e que fazem a vida valer a pena.
Sem apelar para um otimismo forçado, o filme de Wim Wenders comprova que, com um olhar atento, todos os dias são perfeitos.
Clique aqui para escutar a trilha sonora do filme, que é deliciosa, contemplativa e um suspiro na correria do dia a dia. 🍃
Nem sempre é bom, nem sempre é ruim
(Baseado em uma história real)

Enquanto Miryellen ainda não tem sua própria história de amor para contar, ela gosta de lembrar — e registrar — a narrativa de onde veio: a história de Sebastião e Rosângela.
• Tudo começou em 1988. Três anos depois, em 1991, eles se casaram. E, no dia 5 de outubro de 2025, celebraram 34 anos de casamento.
Na manhã daquele domingo, enquanto Miryellen os parabenizava pela data, escutou a mãe perguntar ao pai: "Você imaginava que hoje estaríamos aqui, completando 34 anos de casados?"
Sebastião sorriu e respondeu com a serenidade de quem nunca fez grandes planos: Não. Nunca pensei muitos anos à frente. Eu sabia que queria estar com você. O resto, a vida foi desenhando.
E é verdade. Eles nunca foram de traçar projetos grandiosos, mas de fazer planos pequenos e possíveis para todos os dias.
Talvez seja justamente isso o segredo: não começar a vida com alguém querendo abraçar o mundo, mas com a vontade constante de permanecer — mesmo quando as coisas ficam difíceis.
• A frase da escritora Carla Madeira, “o amor não é bom todo dia, mas é bom a vida toda”, nunca fez tanto sentido para filha quanto ao olhar para os dois.
Há um trecho do livro Tudo é Rio que Rosângela adora. Quando Miryellen o leu pela primeira vez, correu para mostrar à mãe, que ouviu e disse que aquilo descrevia exatamente o casamento ao longo dos anos:
“Nem sempre é bom, nem sempre é ruim. desconheço a balança que mede isso. É o que é, aceito, rejeito, mas não escolho mais tirar de mim esse amor entranhado [...] Não quero viver sem Antônio, me caso todos os dias com ele, acordo e caso, depois faço o café. Tem dia que ele tá chato de doer, largo pra lá. Ele melhora sozinho e depois piora e torna a melhorar e a gente vai assim, tomando distância e diminuindo distância. Caminhando.”
E talvez seja assim mesmo que os casamentos longos sobrevivam: caminhando. Um dia de carinho, outro de cansaço; um de risos, outro de silêncio. Entre altos e baixos, o amor segue — imperfeito, mas inteiro.
Miryellen já perdeu as contas de quantas vezes pediu para ouvir a história de como tudo começou. Cada vez que escuta, há um novo detalhe, uma lembrança esquecida que ressurge.
• Rosângela tinha 17 anos. Sebastião, 21. O primeiro encontro aconteceu em uma festinha de domingo à tarde, na casa da vizinha da mãe dela.
Na verdade, foi ela quem o viu primeiro — dormindo no sofá da sala. Quando ele acordou, nem reparou nela. Curiosa, Rosângela perguntou à mãe quem era aquele rapaz. “O irmão caçula da vizinha”, ela respondeu.
O tempo passou, os dois se cruzaram outras vezes no bairro, sempre de passagem. Até que uma amiga em comum resolveu intervir e convidou Rosângela para o cinema, num encontro de casais: ela e o namorado, Rosângela e Sebastião.
Durante o filme, Sebastião arriscou um beijo, mas levou um “calma aí, temos que nos conhecer primeiro”.
A partir daí, começou o interesse de verdade. Vieram as visitas, os passeios de fim de semana, as idas ao cinema no centro da cidade e as viagens de ônibus até o shopping — o único da época.
Depois veio o pedido de namoro, o noivado, o casamento, e, aos poucos, a vida inteira que eles construíram juntos.
Miryellen, curiosa, quis saber também qual era a música do casal. Rosângela respondeu sem hesitar: “Aquela do filme Dirty Dancing — ‘(I’ve Had) The Time of My Life’”.
Quando Miryellen leu a tradução, entendeu o porquê: “Você é a única coisa da qual nunca me canso”, dizia um trecho. E era exatamente assim que eles pareciam ser um para o outro.
• Trinta e quatro anos depois, Sebastião e Rosângela seguem juntos, com a leveza de quem aprendeu a encontrar alegria nas pequenas coisas.
Amam tomar café expresso em cafeterias, jogar partidas intermináveis de mahjong no celular — com direito a competições de nível entre eles — e passar os finais de semana no sítio que construíram do zero.
Talvez a vida seja isso mesmo: uma sucessão de dias simples que, juntos, se tornam extraordinários. E o amor deles é prova viva de que o essencial mora justamente aí: na constância, no companheirismo e na escolha diária.
Miryellen costuma dizer que amar os pais é o sentimento mais natural que existe. Sebastião e Rosângela são amor que ensina, cuidado que acolhe e presença que acalma.
Eles nem imaginam, mas, todos os dias, as filhas aprendem algo novo ao observá-los, seja nas manhãs silenciosas, nas tardes de conversa e até nas pequenas discordâncias que logo se dissolvem.
Como disse Drummond, “O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar, no olhar silencioso da esperança.” O amor deles cabe assim: nas janelas da rotina, nas distâncias que se encurtam e na beleza simples de permanecer.
Texto e imagens: The stories/Reprodução












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