História do domingo: Solitude
- reginaldorodrigues3
- 28 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Vida nova
“Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número.”
E amanhã é domingo


Essa crônica da Clarice é bem pequena, mas carrega uma ideia precisa: recomeços não precisam de grandes marcos oficiais.
Ela desloca o “Ano Novo” do calendário para algo muito mais íntimo e recorrente: o domingo à noite. Sem fogos ou resoluções ambiciosas, apenas a consciência de que um novo ciclo começa, mesmo que pequeno.
• É uma forma de dizer que recomeçar não precisa ser dramático nem radical; pode ser um gesto simples, quase imperceptível.
Arrumar papéis, aceitar que não haverá governanta, reconhecer os limites da própria vida concreta. Há nisso uma recusa à fantasia da vida perfeita e uma aceitação madura do que é viável agora.
O recomeço, para Clarice, não acontece uma vez por ano, mas todas as semanas, de forma discreta, naquilo que se pode fazer.
Não é sobre conseguir o emprego dos sonhos, correr uma maratona e casar com o amor da sua vida. Pode ser sobre arrumar seu quarto, dar uma caminhada de 20 minutos e se abrir para o amor.
Mas, como a gente nunca deve deixar de sonhar, Clarice ressalta que os sonhos permanecem guardados, protegidos do excesso de palavras e da pressão por realização imediata.
• Ela separa o que é plano do que é sonho, como se dissesse que nem tudo precisa virar meta, que alguns desejos sobrevivem melhor no silêncio.
Carlos Drummond de Andrade já disse que, para ganhar um belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, você não precisa fazer listas de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Trocando grandes viradas por pequenos ajustes, os dois autores vão na contramão da urgência por mudanças totais. Em vez de prometer uma vida nova, é melhor cuidar da vida que já existe.✨
Solitude
(Baseado em uma história real)

Quando Yasmin tinha 16 anos, começou a namorar o Pedro. Os dois ainda estavam no ensino médio e, naquela época, tudo parecia funcionar melhor em grupo. Suas melhores amigas namoravam os melhores amigos dele, e os programas coletivos ajudavam a suavizar as brigas — que já eram frequentes.
Pedro era muito ciumento, mas a imaturidade e a inexperiência da adolescência fizeram com que ambos acreditassem que aquele relacionamento era saudável.
Com o tempo, o namoro tornou-se cada vez mais caótico. Após três anos marcados por insegurança e aperto no peito, Yasmin decidiu colocar um ponto final em uma relação que já estava desgastada há muito tempo.
Como diria Roger Scruton, “o amor não é bom em si mesmo: é bom enquanto virtude e ruim enquanto vício.”
O término coincidiu com um período de mudanças. Yasmin foi para outra cidade para fazer cursinho pré-vestibular e se sentia empolgada com a nova rotina e com as possibilidades da vida de solteira.
Em menos de um mês, conheceu Rodrigo. Doce e atencioso, ele era o oposto do ex-namorado, e os dois se envolveram de maneira leve e natural. Logo depois, passaram a se ver com frequência e, em pouco tempo, assumiram um namoro.
• Dessa vez, não havia brigas. No entanto, o que Yasmin não percebeu foi que a intensidade da relação vinha muito mais da carência mútua do que de afinidades sólidas.
Eles faziam tudo juntos, eram inseparáveis e mal conseguiam diferenciar o “eu” do “nós” — daqueles casais que só falam no plural.
Assim permaneceram por quatro anos, até que a falta de espaço começou a sufocar os dois. Em uma conversa madura e tranquila, decidiram seguir caminhos diferentes.
Na reta final da faculdade, Yasmin passou as férias de verão em sua cidade natal... E foi lá que reencontrou Gustavo, um velho amigo que não via há muito tempo.
• Ela estava solteira há apenas algumas semanas, mas não viu problema em se aproximar.
O que deveria ser um simples romance de verão se prolongou: mensagens foram trocadas, e a distância só aumentou a vontade de encontrar. Assim, eles acabaram assumindo um namoro.
Depois de formada, Yasmin se mudou para a cidade de Gustavo e começou uma nova vida por lá.
O início da carreira e da relação foi promissor. Ela viveu experiências profissionais importantes, e o namoro era marcado por admiração e companheirismo. Tudo certo na trabalho e no relacionamento.
Com o passar dos anos, porém, estilos de vida muito diferentes começaram a impor-se. Aquela parceria transformou-se em um abismo entre duas pessoas que já não se encaixavam. Após três anos juntos, o término mostrou-se inevitável.
Algumas semanas depois, Yasmin conheceu Lucas. Mais madura, percebeu algo que até então passava despercebido: havia um padrão em sua trajetória — entrar em um novo relacionamento logo após sair do anterior.
• Embora muitas pessoas consigam amar sem perder a própria identidade, no caso dela, uma verdade se impunha: Yasmin sabia muito pouco sobre si mesma.
Ela frequentou shows de rock porque Pedro gostava, entrou no grupo de corrida por incentivo de Rodrigo e aprendeu a andar a cavalo porque Gustavo vivia indo para a fazenda.
Não se arrepende de nada do que viveu e é grata por todas as pessoas que passaram por sua vida. Mas, agora, o foco é outro.
Sozinha, ela descobriu preferir sertanejo ao rock, mas que a corrida realmente veio para ficar. Apaixonou-se pela culinária e percebeu que sua sexta-feira ideal é em casa, assistindo a um bom filme.
Após mais de dez anos afastada de si mesma, Yasmin decidiu que não tinha mais tempo a perder. Está empenhada em conhecer, com honestidade, as dores e as delícias de ser quem realmente é.
Ela acredita que, no momento certo, estará pronta para contar uma nova história de amor. Até lá, aproveita essa versão recém-descoberta, com um aprendizado: antes de amar alguém, é preciso amar a si mesma.
Texto e imagens: The stories/Reprodução












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