História do domingo: Você me ensinou a viver
- reginaldorodrigues3
- há 4 dias
- 4 min de leitura
Constância
O hábito é tudo, até no amor.
Não dá para começar a ler a edição sem antes escutar essa música aqui. ❤️
Cotidiano


Essa letra é da canção “Cotidiano”, composta por Chico Buarque em 1971 e lançada no álbum Construção — um dos discos mais importantes da música brasileira.
A música dialoga diretamente com o Brasil urbano dos anos 70, mas atravessa o tempo justamente porque fala de algo universal: amar dentro da repetição.
Na letra, o amor não aparece como explosão ou promessa grandiosa, mas como ritmo. Ele se constrói no que se repete, nos horários marcados, nos gestos quase automáticos.
• “Todo dia” vira um refrão invisível: o amor acontece na insistência, não na surpresa.
Os beijos mudam de sabor — hortelã, café, feijão, paixão, pavor — como se o amor atravessasse o dia junto com o corpo e com a vida prática. O amor se adapta ao trabalho, à fome, ao sono, à exaustão.
De manhã, ele é fresco e funcional; ao longo do dia, vira sustento, cansaço, obrigação; à noite, mistura desejo e medo.
Indo contra aquele pensamento de que o amor verdadeiro chega como certeza, o eu lírico mostra que tem dúvidas — “meio-dia eu só penso em dizer não”.
Mas, mesmo oscilando entre o impulso de parar e a decisão de continuar, ele segue apostando naquele amor. Amar, aqui, não é escolha renovada a cada instante; é permanência. É ficar mesmo quando dá vontade de ir embora.
Seguindo essa ideia, há uma citação do livro Tudo é Rio que diz: “Eu e Antônio estamos casados há vinte e seis anos. Nem sempre é bom, nem sempre é ruim. Desconheço a balança que mede isso. É o que é, aceito, rejeito, mas não escolho mais tirar de mim esse amor entranhado, pertence a lugares em mim que não mando mais. Não fico tomando conta, podia ser assim, podia ser assado, medindo com régua o que falta. Não quero viver sem Antônio, me caso todos os dias com ele, acordo e caso, depois faço o café.”
Chico Buarque e Carla Madeira mostram que, mesmo quando o amor não é perfeito, ele não se desfaz. “Não é bom todo dia, mas é bom toda a vida.”
Você me ensinou a viver
(Baseado em uma história real)

Arthur sempre acreditou em planos. Estudo, disciplina e futuro organizado em etapas bem definidas. O amor, se viesse, viria depois… Mas aí ele conheceu Belle.
• Primeiro, como um rosto familiar nos corredores da escola;
• Depois, como um aceno tímido, até se tornar “um ponto de inflexão na sua vida.”
Bastou um elogio, enviado quase sem pretensão, para que o mundo começasse a se rearranjar.
O que nasceu entre eles não foi um grande gesto cinematográfico, mas algo mais raro: constância. Conversas diárias, encontros nos intervalos e um primeiro beijo escondido.
Arthur, que jurava não namorar antes da faculdade, começou a perder ônibus só para ganhar minutos ao lado dela. E ali, sem perceber, seus planos começaram a ser reescritos.
• Belle ensinou Arthur a olhar, a perceber beleza onde antes ele via apenas rotina. Nos olhos castanhos que brilhavam ao sol, como versos de “Pela Luz dos Olhos Teus”;
• No sorriso que tornava única qualquer cena, como a raposa de O Pequeno Príncipe explicaria;
• Na trilha sonora que misturava Chico Buarque, bossa nova, Skank e silêncios confortáveis;
• Nos filmes vistos juntos e avaliados no Letterboxd;
• Nos domingos com cheiro de café, gosto de pão de queijo e o tempo passando devagar demais.
O amor deles era cotidiano — quase uma canção do Chico. Igreja de manhã, almoço compartilhado, um filme à tarde, corpos encaixados enquanto o dia terminava.
Nada de extraordinário, exceto pelo fato de que tudo se tornava extraordinário por ser vivido junto.
Arthur ama ficar abraçado com ela enquanto a tarde avança. Ama quando ela deita no seu peito e prepara tapioca e café. Ele ama fazer tudo sempre igual, desde que seja com ela.
Belle pinta girassóis, noites estreladas e campos de trigo — e faz Van Gogh parecer rascunho. É forte de um jeito silencioso, carrega histórias que não se anunciam. Tem um ótimo gosto para filmes e livros.
Entre museus, exposições de Van Gogh, Monet e longas conversas em mesas de restaurantes, Arthur entendeu que cultura também se constrói a dois — e que dividir um prato é uma forma de intimidade.
Ele também aprendeu com ela que amar é ser abrigo. Que ressignificar não é esquecer quem se foi, mas permitir-se ser outro.
Quatro anos depois, o amor deles segue simples, imenso e repleto de referências: trilogias imaginadas em Paris, como Before Sunrise; croissants que serão provados; músicas que os conectam; Snoopy, lua cheia e girassóis.
• Um futuro sonhado com plantinhas, café passado, bons filmes e despedidas que deixarão de existir.
Desde que se conheceram, Arthur sabia: Belle não entrou só na sua vida — ela o ensinou a viver, a enxergar beleza nos detalhes e a entender que nenhum plano vale mais do que o presente compartilhado.
Ressignificar, afinal, é isso: amar alguém que muda a forma como o mundo é visto. Alguém que transforma os momentos mais banais em especiais. Alguém que se preocupa. Alguém que fica.
E assim, sem grandes efeitos especiais, Arthur e Belle construíram a mais bonita das histórias de amor: aquela que acontece todos os dias.
Texto e imagens: The stories/Reprodução












Comentários