Pequenos negócios, grandes mudanças: a acessibilidade que começa a redesenhar São Luís
- reginaldorodrigues3
- há 18 horas
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Atualizado: há 3 horas

Conhecida pelo conjunto arquitetônico colonial, praias, cultura vibrante e pelo título de Patrimônio Mundial da Humanidade, a cidade de São Luís vive hoje um desafio que vai além da preservação histórica: tornar-se uma cidade mais acessível, inclusiva e preparada para receber todos os públicos.
Se durante muitos anos a acessibilidade foi vista apenas como cumprimento de normas ou adaptações pontuais, atualmente ela começa a ser percebida também como oportunidade de desenvolvimento, melhoria da experiência turística e fortalecimento dos pequenos negócios.

Na capital maranhense, hotéis, restaurantes, equipamentos turísticos e empreendedores começam a enxergar que preparar espaços e equipes para receber pessoas com deficiência, idosos e visitantes com mobilidade reduzida pode representar inclusão social e também novas oportunidades econômicas.
Parte dessa transformação ganhou força por meio das ações desenvolvidas dentro do Programa Turismo Futuro Brasil, iniciativa que trabalhou a construção de Destinos Turísticos Inteligentes e inseriu a acessibilidade como um dos eixos estratégicos para o desenvolvimento do turismo em São Luís.
Diagnóstico apontou caminhos para melhorar a acessibilidade

Dentro das ações do programa, o Sebrae realizou um Diagnóstico de Acessibilidade em empreendimentos e equipamentos turísticos da capital.
Participaram da iniciativa:
Brisamar Hotel & SPA;
Restaurante Cabana do Sol;
Aeroporto;
Restaurante Conchas II;
Restaurante Amendoeira;
Barraca Ohana;
Palácio dos Leões.
Os empreendimentos receberam orientações técnicas relacionadas à infraestrutura, atendimento inclusivo, comunicação, acolhimento e experiência do visitante.
A próxima etapa do trabalho será retornar aos locais para avaliar quais melhorias foram efetivamente implementadas.
Mais do que adequações físicas, a proposta buscou provocar mudanças de comportamento e despertar uma nova percepção sobre inclusão.
Quem vive a realidade reconhece avanços, mas alerta para limitações

O subsecretário de Estado do Turismo do Maranhão, Luiz Thadeu, também é pessoa com deficiência física e utiliza bengala/muletas após sofrer um acidente automobilístico.
Para ele, São Luís e o Maranhão ainda enfrentam limitações importantes.
“O Maranhão como um todo e São Luís especificamente não são lugares acessíveis para a maioria das pessoas. Nós estamos evoluindo.”
Segundo ele, historicamente ruas, vias públicas, praças e espaços urbanos não foram pensados considerando pessoas com mobilidade reduzida. Mesmo assim, observa avanços.

Luiz Thadeu destaca que atualmente o Maranhão possui uma pauta estruturada de acessibilidade dentro da Secretaria Estadual de Turismo, algo ainda raro no Nordeste.
Durante uma reunião realizada em Maceió com representantes dos nove estados nordestinos, apenas o Maranhão apresentou ações estruturadas voltadas à temática.
“A acessibilidade não é somente para pessoas com deficiência física, como é o meu caso. Estamos falando também dos idosos, das pessoas com baixa visão, obesos e todos aqueles que possuem algum tipo de limitação de mobilidade.”
Segundo ele, aproximadamente 18% dos brasileiros possuem algum tipo de restrição relacionada à mobilidade, número que representa quase 40 milhões de pessoas.
“É um público que cresce cada vez mais e as cidades precisam estar preparadas.”
Entre os exemplos citados está a revitalização da Praça do Sol, na Ponta d’Areia, que já foi entregue considerando piso tátil, rampas e acessibilidade.
Além disso, a Secretaria de Turismo vem dialogando com o setor empresarial.
“O turismo mundial mostra que cada vez mais pessoas com algum tipo de deficiência viajam e precisam encontrar locais preparados.”
Brisamar investiu em estrutura e treinamento das equipes

Entre os empreendimentos participantes está o Brisamar Hotel & Spa. Segundo o gerente-geral, Álvaro Soares, a mentoria promovida serviu para reforçar práticas que já faziam parte da cultura do empreendimento.
“Sinceramente, o curso serviu mais para avivar a memória, porque muito do que foi apresentado já fazia parte do que praticávamos.”

Com 25 anos de atuação, o hotel já possuía quartos adaptados, mas decidiu avançar. Após o processo, os apartamentos destinados a hóspedes com necessidades específicas passaram por reformas completas.
As adequações envolveram altura das camas, mobiliário, armários, banheiros e circulação interna conforme normas atualizadas.

Além das mudanças estruturais, o hotel reforçou a qualificação das equipes.
“Não é apenas um check-in normal. É uma atenção especial desde a chegada até a saída.”
Hoje, equipes do hotel, restaurante e demais serviços recebem orientações específicas para acompanhar hóspedes com necessidades especiais durante toda a estadia.
A experiência de quem utiliza os serviços diariamente

As mudanças foram percebidas por quem vive a experiência na prática.
A condutora Neide Gonçalves, que acompanhava o cadeirante Celso Oliveira durante hospedagem no hotel, elogiou a estrutura interna.
“O serviço é sensacional. Desde a entrada até os apartamentos, banheiros e áreas internas tudo é muito acessível.”

Mas a dificuldade aparece fora do empreendimento.
“A dificuldade que encontramos foi justamente na saída do hotel e no acesso até a orla. Faltam algumas rampas para facilitar o passeio.”
Mesmo reconhecendo limitações, ela acredita que houve avanços.
“Hoje encontramos muitos lugares com acesso. Já foi muito mais difícil, mas ainda falta melhorar bastante.”
No Centro Histórico, a realidade das calçadas ainda desafia quem precisa de acessibilidade

Durante a produção da reportagem pelas ruas do Centro Histórico de São Luís, a equipe do Cazumbá encontrou a senhora Rosilene Tavares passeando com Legiliane Oliveira, cadeirante que nasceu com microcefalia e não possui coordenação motora.
As duas transitavam pela calçada do Parque 15 de Novembro, em meio a uma realidade ainda marcada por obstáculos.
Segundo Rosilene, a rotina exige planejamento constante.

“É muito complicado. Tem lugares onde a gente simplesmente não consegue passar. Muitas calçadas são quebradas, desniveladas e às vezes precisamos descer para a rua porque não existe acesso. Quem empurra uma cadeira de rodas sabe das dificuldades que enfrentamos todos os dias.”
Ela afirma que as dificuldades aumentam ainda mais no bairro onde mora.
“Tem dias que sair de casa já é um desafio. A gente precisa planejar o caminho, procurar onde tem acesso e muitas vezes depende da ajuda de outras pessoas.”
Seu relato evidencia uma realidade diária enfrentada por muitas famílias: a dificuldade de exercer algo básico, o direito de ir e vir.
Na Barraca Ohana, inclusão significa acolhimento

Na Barraca Ohana a acessibilidade também passou a ser prioridade. Para a proprietária Beatriz Uchoa, inclusão vai muito além de infraestrutura.
“A inclusão vai muito além da estrutura. É sobre respeito, empatia e fazer a pessoa se sentir acolhida.”
Por funcionar em ambiente de praia, onde as barreiras são maiores, a empresa passou a investir em treinamento e sensibilização.
Segundo ela, o Sebrae se tornou parceiro importante nesse processo.
“As capacitações ajudaram a nossa equipe a compreender atendimento inclusivo, comunicação humanizada e formas corretas de acolher cada cliente.”
Beatriz afirma que muitos turistas chegam preocupados sobre como será a experiência.
“O visitante quer sentir a areia, a brisa e viver a experiência completa.”

Hoje a empresa utiliza inclusive as redes sociais para reforçar a mensagem de acolhimento.
“Queremos receber a família toda: idosos, crianças e pessoas com deficiência.”
Prefeitura aposta em turismo acessível

O secretário municipal de Turismo de São Luís, Saulo reconhece que a cidade possui desafios históricos.
“São Luís não foi planejada pensando acessibilidade. É uma cidade histórica e possui regras e limitações próprias.”
Mesmo assim, afirma que o município vem trabalhando para mudar esse cenário.
Segundo ele, a cidade participou de consultorias ligadas ao modelo de Destinos Turísticos Inteligentes.
Entre as ações desenvolvidas estão:
produção de manuais;
campanhas educativas;
diagnósticos;
qualificação do trade turístico;
mentorias individualizadas.
Mais de 20 equipamentos participaram do diagnóstico e 12 receberam acompanhamento técnico especializado.
“É uma semente que foi plantada e precisa continuar crescendo.”
IFMA mostra que inclusão também se constrói com criatividade

As dificuldades da cidade também foram identificadas em estudo desenvolvido pelo Instituto Federal do Maranhão. Através da Professora Janete Chaves, tivemos acesso ao material produzido pelos alunos e professores do curso de turismo da instituição.
O projeto “City Tour Inclusivo: São Luís em Libras e Por Outros Olhos” desenvolveu roteiros turísticos voltados para pessoas surdas e cegas.

A proposta criou experiências inéditas utilizando audição, tato, olfato e Libras para aproximar públicos historicamente excluídos dos espaços turísticos.
Durante o mapeamento realizado pelos estudantes no Centro Histórico foram identificadas limitações importantes:

poucas rampas;
escassez de piso tátil;
barreiras urbanas;
dificuldades de deslocamento;
limitações de autonomia.
Apesar dos desafios, o projeto demonstrou que criatividade, educação e inovação podem gerar soluções inclusivas.
Inclusão também é oportunidade para pequenos negócios

Se antes a acessibilidade era vista apenas como obrigação legal, hoje muitos empreendedores começam a perceber outra realidade.
Preparar espaços, capacitar equipes e desenvolver experiências mais inclusivas significa ampliar mercados, melhorar reputação e conquistar novos públicos.
No turismo, inclusão também é competitividade.
São Luís ainda possui muitos desafios pela frente.

A gestora estadual de Turismo e Artesanato do Sebrae Maranhão, Flavia Nadler, destaca que investir em acessibilidade nos pequenos negócios do turismo deixou de ser apenas uma questão social e passou a representar também estratégia de desenvolvimento econômico e competitividade.
Segundo ela, apoiar ações voltadas à inclusão significa garantir que experiências turísticas possam ser vivenciadas de forma digna, segura e respeitosa por todas as pessoas.
“Trata-se de um mercado amplo e crescente, composto por viajantes cada vez mais interessados em destinos e serviços acessíveis. Empresas qualificadas tornam-se mais competitivas, ampliam oportunidades e fortalecem um turismo mais inclusivo e sustentável”, ressaltou.
A discussão também ganha reforço acadêmico. A acadêmica do Terapia 2º período do curso de Terapia Ocupacional da Faculdade Uniesf, Ana Kezia Nascimento da Silva, observa que a acessibilidade não deve ser compreendida apenas pela existência de rampas ou adaptações físicas.
"A construção de ambientes inclusivos envolve autonomia, participação social e garantia do direito de circulação e pertencimento das pessoas nos espaços urbanos. Sob esse olhar, pensar cidades acessíveis significa permitir que cada indivíduo exerça plenamente atividades simples do cotidiano, como passear, estudar, trabalhar e viver experiências de lazer com segurança e independência" falou Ana Kezia.
Mas entre mentorias, iniciativas acadêmicas, políticas públicas e mudanças de mentalidade, a cidade começa a compreender algo fundamental:
acessibilidade não é custo.
É investimento.
É acolhimento.
E também pode ser um caminho para fortalecer pequenos negócios e construir uma cidade melhor para todos.
Fotos: Acervo do Cazumbá/Acervo da Setur-MA/Marcos Rocha/
Fotos City Tour com deficientes visuais: Fernando dos Anjos/Divulgação







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