Lençóis Maranhenses: o desafio de administrar o próprio sucesso
- reginaldorodrigues3
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Por Reginaldo Rodrigues / Jornal Cazumbá
O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses vive um dos momentos mais importantes de sua história. O reconhecimento como Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO elevou o destino a um novo patamar de visibilidade internacional, atraindo visitantes do Brasil e do mundo para um cenário único de dunas e lagoas que não encontra paralelo em nenhum outro lugar do planeta.
O resultado é visível. Aumento do fluxo turístico, expansão da rede de hospedagem, novos investimentos, crescimento da oferta de passeios e maior movimentação econômica em municípios como Barreirinhas, Santo Amaro, Primeira Cruz, Paulino Neves e nas comunidades que vivem no entorno do parque.
Mas junto com o sucesso surgem desafios que já não podem mais ser ignorados.
A concentração de visitantes nos mesmos atrativos, os gargalos de infraestrutura, os recentes acidentes registrados na região, a pressão sobre os serviços públicos e as preocupações ambientais colocaram em pauta uma pergunta que há poucos anos parecia distante: como garantir que o crescimento dos Lençóis Maranhenses aconteça sem comprometer aquilo que faz do destino um patrimônio mundial?
Para a professora e pesquisadora da Universidade Federal do Maranhão, Júnia Borges, especialista em capacidade de carga turística, o alerta é claro.
"Todos perdem com o excesso de visitantes no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. As comunidades tradicionais, os operadores de turismo, condutores, o ICMBio, a natureza e os visitantes. Não tem ninguém que se beneficie com essa situação a médio e longo prazo."
A preocupação é compartilhada pelo professor César Roberto Castro Chaves, coordenador do curso de Turismo da UFMA em São Bernardo e conselheiro suplente do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.
"Temos testemunhado diversos problemas em termos de capacidade de carga, excesso de visitantes em alguns pontos, verdadeiro turismo de massas ocorrendo, com excesso de visitantes, excesso de condutores e veículos, gerando impactos sobre a fauna, a flora e o ambiente."
Segundo ele, a dimensão territorial do parque, associada ao número reduzido de profissionais para fiscalização e monitoramento, torna ainda mais complexo o desafio de ordenar a visitação.
A então chefe do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, Cristiane Figueiredo, que esteve à frente da unidade entre janeiro de 2023 e junho de 2026, defende investimentos urgentes para garantir a proteção do patrimônio natural e a segurança dos visitantes.
"É preciso investimento na estruturação do parque, visando à construção de infraestrutura e sinalização para fomentar a pesquisa, melhorar a experiência e a segurança dos visitantes."
Cristiane lembra que o ICMBio vem desenvolvendo estudos relacionados ao Número Balizador da Visitação (NBV), ferramenta que auxiliará na definição de parâmetros para o uso público da unidade.
A discussão também alcança o planejamento turístico estadual.
Responsável pela elaboração do Plano de Diretrizes para o Turismo Sustentável no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, a consultora Marcela Pimenta, CEO da Turismo 360, destaca que o documento busca alinhar os diversos atores envolvidos na gestão do destino.
"O Plano de Diretrizes para Turismo Sustentável no PNLM é um instrumento de governança e orientação estratégica que funciona como o fio condutor para investimentos públicos e privados."
Segundo ela, a capacidade de suporte certamente será um dos temas centrais para garantir a preservação do título de Patrimônio Natural da Humanidade.
Na visão da iniciativa privada, os desafios também são evidentes.
Para Carlos Kerluylys, da Pousada do Buriti, em Barreirinhas, o município vem avançando, mas ainda precisa acompanhar o ritmo de crescimento da demanda.
"A cidade tem melhorado sua estrutura para receber cada vez mais visitantes, mas o crescimento do turismo exige investimentos contínuos em infraestrutura, saneamento, mobilidade e qualificação profissional."
Aline Meirelles, presidente da Instância de Governança Regional (IGR) Polo Lençóis & Delta, avalia que a região vive uma oportunidade histórica, mas que o desenvolvimento precisa ser compartilhado entre todos os municípios e comunidades.
"Não basta aumentar o número de visitantes; é necessário garantir qualidade na experiência, segurança, valorização da cultura local e geração de benefícios reais para a população."
Ela defende que o ordenamento da visitação seja construído com base em estudos técnicos e diálogo permanente entre os diversos segmentos envolvidos.
Em Atins, um dos destinos mais desejados do país atualmente, a empresária Maíra Matsui, da Casa Ingapura, chama atenção para questões que vão além da atividade turística.
"O crescimento de Atins trouxe benefícios importantes para a comunidade local, mas os principais desafios estão ligados ao saneamento, à coleta de lixo, ao abastecimento de água, à energia, ao ordenamento do povoado, à pressão imobiliária e ao processo de gentrificação."
Para ela, o desenvolvimento precisa preservar aquilo que faz do lugar um destino especial.
"Crescer bem é crescer sem apagar a identidade do lugar."
A percepção é compartilhada pela presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens do Maranhão (ABAV-MA), Dayanna Barbosa.
"Os Lençóis Maranhenses têm justamente na sua preservação ambiental o seu maior patrimônio e diferencial competitivo. Portanto, crescimento e conservação não são objetivos opostos; pelo contrário, precisam caminhar juntos."
Segundo Dayanna, o turismo sustentável passa pelo respeito à capacidade de carga dos atrativos, fortalecimento das comunidades locais, educação ambiental e investimentos em infraestrutura.
A reportagem também procurou ouvir as Secretarias Municipais de Turismo de Barreirinhas e Santo Amaro.
Questionamentos relacionados à infraestrutura turística, segurança dos visitantes, ordenamento da atividade e desafios decorrentes do crescimento da demanda foram encaminhados às duas gestões, mas não houve devolutiva até o fechamento desta edição.
Ao final da apuração, uma constatação chama atenção.
Apesar de ocuparem posições diferentes, pesquisadores, gestores públicos, empresários, agentes de viagens e representantes da governança regional, todos os entrevistados convergem para a mesma conclusão: os Lençóis Maranhenses precisam de planejamento, infraestrutura, segurança e ordenamento para garantir que o crescimento do turismo não comprometa o futuro do próprio destino.
Os recentes acidentes registrados na região, a pressão crescente sobre determinados atrativos e os desafios enfrentados pelas comunidades locais demonstram que a discussão sobre capacidade de suporte deixou de ser um tema restrito a especialistas e passou a fazer parte da realidade do parque.
A grande questão não é mais quantos turistas os Lençóis Maranhenses conseguem atrair. O mundo já respondeu essa pergunta.
O desafio agora é outro: garantir que esse crescimento aconteça de forma responsável, preservando a experiência do visitante, respeitando as comunidades tradicionais e protegendo um patrimônio natural que pertence à humanidade.
Os Lençóis Maranhenses alcançaram reconhecimento mundial. Agora precisam mostrar ao mundo que também são capazes de administrar esse sucesso.
Porque preservar os Lençóis não é impedir o desenvolvimento.
É garantir que as próximas gerações possam continuar encontrando as mesmas dunas, lagoas, paisagens e comunidades que hoje fazem deste lugar um dos mais extraordinários destinos do planeta.
Foto Ilustrativa/Recebida/Internet/Divulgação








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