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Oceanos Não Pacíficos

Por Wybson Carvalho

um conto de amor


O amor entre o poeta Gonçalves Dias e Ana Amélia

Era setembro de 1870, na cidade de São Luís do Maranhão. Em tempo precoce, parecia ser interminável aquela chuva à beira-mar, nas proximidades da rampa Campos Melo: um local de muita movimentação em atracações, embarque e desembarque das embarcações marítimas típicas da época, como bianas, igarités, boies, botes proas de risco, canoas costeiras, iates, que nascidos artesanalmente do ofício da carpintaria naval, ali, chegavam e partiam trazendo e levando mercadorias e gente. Naquele local de chegada e partida havia muito trabalho de homens pescadores, estivadores, arrumadores, além de passageiros em viagens na travessia do Boqueirão Maranhense. O boqueirão, em si, misterioso e perigoso, ontem, como hoje, é um pedaço de mar cujos maremotos causam arrepios aos que se arriscam a atravessá-lo, sobretudo no período de inverno rigoroso. Enfim, um cenário de muitas estórias de naufrágios e desaparecimento de embarcações com tripulação e passageiros.


O momento, então, era mesmo de um inverno insistente. A chuva nunca dava trégua. A arrebentação, com a maré alta, ampliava o cenário aterrorizante. Não havia outra possibilidade de alguém sair de casa para realizar alguma atividade que não fosse relacionada diretamente a viagem, ou negócios, ali, na rampa Campos Melo. A despeito do cenário e do clima, diariamente, por lá, uma pessoa marcava presença. Era uma senhora muitíssimo bem-vestida, que se revelava mais proeminente pela luz que irradiava dos seus dois grandes e irrequietos olhos negros. Através deles, tinha-se a certeza de que aquela alma nutria uma esperança quase doentia, à espera de alguém prestes a chegar. E lá ficava ela, sempre no mesmo lugar, olhando o mar, como se acenando para alguém que vivesse nos domínios de Poseidon, guiado pela própria imaginação. Algumas pessoas mais acostumadas com a presença diária da mulher, que parecia pertencer à alta burguesia ludovicense, chegavam a comentar: - “Aquela senhora é a Ana Amélia; a musa do poeta Antônio Gonçalves Dias, que, desde que se tornara viúva pela segunda vez, passara a estar sempre presente na rampa Campos Melo, como se estivesse à espera da chegada do poeta náufrago do Ville de Boulogne, desde o ano de 1864, quando tentava regressar da Europa para sua terra, o Maranhão”.


Ana Amélia foi, na realidade, o eterno amor do poeta Gonçalves Dias. Aquela pela qual ele também vivera um imenso amor. O sentimento, no entanto, sucumbiu à força dos preconceitos da época. Por causa de discriminação familiar, racismo e à desigualdade de classe social, ambos não tiveram o prazer de vivenciá-lo. Mesmo em se tratando de um amor fiel, verdadeiro e que nunca acaba, um amor impossível de ter sido vivido, restou somente o consolo de ficar guardado na memória e no espírito de Ana Amélia, após o desaparecimento de Gonçalves Dias. O triste fato ocorrido em 1864, num naufrágio bastante noticiado pelos jornais da época, legou para o momento e as gerações futuras a certeza de que o corpo de Gonçalves Dias jamais fora encontrado.


Então, Ana Amélia, que era casada no período em que se deu o naufrágio e o desaparecimento do poeta, após se tornar viúva de dois casamentos, ia todos os dias à rampa Campos Melo, como se, lá, um dia talvez, ela tivesse um grande encontro com o seu único amado. Do fundo do mar, ela esperava que o poeta emergisse e viesse aos seus braços. Para Ana Amélia, já viúva por duas vezes, isso seria possível.


Muitas vezes algumas pessoas a ouviam falar sozinha: - “Um poeta nunca morre, ele se encanta, e o meu Antônio, meu único e verdadeiro amor, está vivo, no meu coração, e eu tenho a certeza de que ele um dia virá numa dessas embarcações ao meu encontro, e nós viveremos nosso amor para sempre, pois sou aquela que ele sempre criou em seu desejo, aquela que ele sempre idealizou em sua imaginação, enfim, aquela que ele amaria e viveria para sempre com esse amor!”. - “O meu amor, Antônio Gonçalves Dias, um dia virá... talvez quando esse inverno acabar e der luz aos céus para iluminar nosso encontro com raios de sol, e nós, então, iremos sentar a um banco do Largo dos Amores e confessar, um ao outro, tudo o quanto pudermos amar dali por diante, sem que nada mais possa nos separar”. - “Mas, se nunca vier ao meu encontro, é porque ele estará me esperando lá nas profundezas desse mar que o esconde de mim. Aí, eu pedirei ao meu bom Deus que me torne, pelo menos, um punhado de sal envaido e mergulhado nesse mar, para que eu possa ir ao seu encontro”. - “Os amores verdadeiros nunca morrem, e , sim, se transformam noutras naturezas para se tornarem lendas encantadas, a fim de alimentar novas paixões aos que souberem sobre nós, os verdadeiros e eternos amantes”.


Num daqueles dias de chuvisco fino, eis que Ana Amélia, ao contemplar a imensidão que tanto mirou no horizonte de águas, deixou-se placidamente adormecer com os braços sobrepostos na mureta à beira-mar que separava o passeio em pedras de cantaria das aguas onduladas. Literalmente, pareceu que lhe cantavam uma canção de ninar. Entregando-se à viagem fantasiosa sentida somente por aqueles que verdadeiramente amam, contemplou a chegada do seu tão desejado e esperado amor. No seu burilamento, ela testemunhava Antônio Gonçalves Dias emergindo daquelas águas repletas do encantamento do poeta. No seu sonho, Ana Amélia sentiu a leveza de uma mão tocando-a, ternamente, e se deixando ficar sobre o seu ombro esquerdo, precisamente, o lado do coração. Extasiada, ouve muito próximo a si a voz de Antônio Gonçalves Dias a declamar-lhe poemas. Ela, então, vira-se para ele e, atentamente, ouve a voz do poeta: - Vejo “seus olhos” tão negros, tão belos, tão puros de vivo luzir, estrelas incertas, que as águas dormentes do mar vão ferir; seus olhos tão negros, tão belos, tão puros de meiga expressão mais doce que a brisa, - mais doce que a fruta quebrando a solidão. Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, de vivo luzir, são meigos infantes, gentis, engraçados brincando a sorrir. São meigos infantes, brincando, saltando em jogo infantil, inquietos, travessos: - causando tormento, com beijos nos pagam a dor de um momento com modo gentil.


Seus olhos são negros, tão belos, tão puros, assim é que são; às vezes luzindo, serenos, tranquilos, às vezes vulcão! Às vezes, oh! Sim, derramam tão fraco, tão frouxo brilhar, que a mim parece que o ar lhes falece e os olhos tão meigos, que o mundo umedece, me fazem chorar. Assim lindo infante, que dorme tranquilo, desperta a chorar; e mudo, sisudo, cismando mil coisas, não pensa – a pensar. Nas almas tão puras da virgem, do infante, às vezes do céu cai doce harmonia duma harpa celeste, um vago desejo; e a mente se veste de pranto co'um véu. Eu amo seus olhos tão negros, tão puros, de vivo fulgor; seus olhos que exprimem tão doce harmonia, que falam de amores com tanta poesia, contanto pudor. Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros, assim é que são; eu amo esses olhos que falam de amores com tanta paixão”. Ela, sem dizer uma única palavra, permanece inerte, e Antônio Gonçalves Dias, após segundos de tempo, anda à sua volta e se põe à sua frente e mirando, intensamente, seus olhos lhe diz: - “Enfim te vejo – enfim posso, curvado a teus pés, dizer-te, que não cessei de querer-te, pesar de quanto sofri. Muito penei! Cruas ânsias, dos teus olhos afastados, houveram-me acabrunhado a não lembrar-me de ti! Dum mundo a outro impedido, derramei os meus lamentos nas surdas asas dos ventos, do amor na craspa cerviz! Baldão, ludíbrio da sorte em terra estranha, entre gente, que alheios males não sente, nem se condói do infeliz!


Louco, aflito, a saciar-me d'agravar minha ferida, tomou-me tédio da vida, passos da morte senti; mas quase no passo extremo, no último arcar da esperança, tu me vieste à lembrança: quis viver mais e vivi! Vivi; pois Deus me guardava para este lugar e hora! Depois de tanto, senhora, ver-te e falar-te outra vez; rever-me em teu rosto amigo, pensar em quanto hei perdido e este pranto dolorido deixar correr a teus pés. Mas, que tens? Não me conheces? De mim afastas teu rosto? Pois tanto pôde o desgosto transformar o rosto meu? Sei a aflição quanto pode, sei quanto ela desfigura, e eu não vivi na aventura... Olha-me bem, que sou eu! Nenhuma voz me diriges!... Julgas-te acaso ofendida? Deste amor, e a vida que me darias – bem sei; mas lembrem-te aqueles feros corações, que se meteram entre nós; e se venceram, mal sabes quanto lutei. Oh! Se lutei... mas devera expor-te em pública praça, como um alvo à população um alvo aos dictérios seus! Devera, podia acaso tal sacrifício aceitar-te para no cabo pagar-te, meus dias unidos aos teus? Devera, sim; mas pensava, que de mim t'esquecidos, que sem mim, alegres dias t'esperavam; e em favor de minhas preces, contava que bom Deus me aceitaria o meu caminho de alegria pelo teu, quinhão de dor!


Que me enganei, ora vejo; nadam-te os olhos em pranto, arfa-te o peito, e no entanto nem me podes encarar; erro foi, mas não foi crime, não te esqueci, eu te juro; sacrifiquei meu futuro, vida e glória por te amar! Tudo, tudo; e na miséria dum martírio prolongado, lento, cruel, disfarçado, que eu nem a ti confiei; “ela é feliz (me dizia) ”seu desencanto é obra minha.” Negou-me a sorte mesquinha... perdoa, que eu me enganei! Tantos encantos me tinham, tanta ilusão me afagava de noite, quando acordava, de dia em sonhos talvez! Tudo isso agora onde pára? Onde a ilusão dos sonhos? Tantos projetos risonhos, tudo esse engano desfez! Enganei-me!... – Horrendo caos nessas palavras se encerra, quando do engano, que erra. Não podes voltar atrás! Amarga prisão! Reflete: quando eu gozar-te pudera, mártir quis ser, cuidei qu'era... e um louco fui, nada mais! Louco, julguei adornar-me com palmas d'alta virtude!


Que tinha eu bronco e rude c'o que se chama ideal? O meu eras tu, não outro; estava em deixar minha vida correr por ti conduzida, pura, na ausência do mal. Pensar que o teu destino ligado ao meu, outro fora, pensar que te vejo agora, por culpa minha, infeliz; pensar que tua ventura Deus ao eterno a fizera, no meu caminho a pusera... e eu! Eu fui que a não quis! Foste doutros, e pr'a sempre eu a mísero desterro volto, chorando o meu erro, quase descrendo dos céus! Dói-te de mim, pois me encontras em tanta miséria posto, que a expressão deste desgosto será um crime ante Deus! Dói-te de mim, que t'imploro perdão, aos teus pés curvado; perdão!... de não ter ousado viver contente e feliz!


Perdão da minha miséria, da dor que me rala o peito, e se do mal que te hei feito, também do mal que te fiz! Adeus qu'eu parto, senhora; negou-me o fado inimigo passar a vida contigo, ter sepultura entre os meus; negou-me nesta hora extrema, por extrema despedida, ouvir-te a voz comovida soluçar em breve Adeus! Lerás porém algum dia meus versos d'alma arrancados d'amargo pranto banhados, com sangue escritos; - e então confio que te comovas, que a minha dor te apiede que chores, não de saudade, nem de amor, - de compaixão”. E, aí, então, se calou, e cabisbaixo retornou às águas daquele mar que se esvaiu nele, tal qual um punhado de sal da vida desfeito... Neste mesmo momento, Ana Amélia despertara de seu sonho, sob o acordar proporcionado pelo apito de uma embarcação a vapor que terminara de desatracar do cais da sagração e, dali, partira navegando pelas águas que encrespavam o horizonte...!


Há mais de século comenta-se que, ali, à beira-mar, em São Luís do Maranhão, nas proximidades da rampa Campos Melo, as ondas do mar, sempre às 18 horas, em cada dia de maré enchente, entoam uma canção de amor em louvor a Gonçalves Dias e à Ana Amélia. Há quem diga que seu desejo, o pedido, logrou êxito junto a Divindade. E, assim, em um belo dia daqueles tempos, Ana Amélia se transmutou em um punhado de sal que mergulhou esvaído no mar e foi ao encontro do encantamento de seu amado. Não se sabe bem a certeza desse encontro, mas, ainda hoje, sucede o comentário de que, nas últimas vezes que Ana Amélia fora vista, ali, àquela espera, tinha sempre seus olhos negros quase que transformados em dois “Oceanos Não Pacíficos”.


Fim…!

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