Quando a decoração esconde o patrimônio
- reginaldorodrigues3
- há 1 hora
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Editorial
Não escrevo este texto para criticar o São João. Muito menos para questionar a beleza das bandeirinhas que, há séculos, fazem parte da cultura popular nordestina.
Escrevo porque considero um contrassenso esconder justamente aquilo que faz de São Luís uma cidade única.
O Centro Histórico, especialmente o bairro da Praia Grande, conhecido por muitos como Projeto Reviver, abriga um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos coloniais do Brasil e o maior conjunto de fachadas revestidas por azulejos portugueses das Américas. Foi esse patrimônio que garantiu à capital maranhense o título de Patrimônio Cultural da Humanidade.
Entretanto, durante as festas juninas, grande parte das ruas da Praia Grande é coberta por um verdadeiro teto de bandeirinhas. O visitante chega para contemplar os casarões, os azulejos, os mirantes, os sobrados e a perspectiva única das ruas coloniais. No entanto, muitas vezes encontra esse patrimônio parcialmente encoberto por uma ornamentação que deveria valorizá-lo, e não escondê-lo.

Mais do que uma questão estética, trata-se de uma reflexão sobre preservação.
O Decreto-Lei nº 25, de 1937, que organiza a proteção do patrimônio histórico e artístico nacional, estabelece, em seu artigo 18, que, na vizinhança do bem tombado, não se poderá colocar elementos que reduzam ou impeçam sua visibilidade sem autorização do órgão competente. O princípio da norma é claro: proteger também a paisagem e a leitura visual do patrimônio.
É curioso perceber que muitos conhecem essa legislação, mas poucos se dispõem a discutir sua aplicação. Em um ambiente onde opiniões técnicas, muitas vezes, cedem espaço ao receio de desagradar, o silêncio acaba prevalecendo.

Outro aspecto que merece reflexão é a duração dessa ornamentação. O que deveria caracterizar apenas o período junino frequentemente permanece até agosto, prolongando por semanas uma intervenção visual sobre um dos maiores patrimônios culturais do país.
Ninguém está propondo acabar com as bandeirinhas. Elas fazem parte da nossa identidade e continuarão encantando moradores e visitantes. A questão é outra: será que precisam ocupar justamente as ruas que concentram o maior valor histórico e arquitetônico da cidade? Não seria mais inteligente distribuí-las pelos largos, praças e vias transversais, permitindo que os casarões continuem sendo vistos em toda a sua grandiosidade?
A verdadeira beleza de São Luís não está apenas na festa. Está na perfeita convivência entre cultura popular e patrimônio histórico. Uma não precisa esconder a outra.

Preservar é, antes de tudo, respeitar a identidade da cidade. E identidade não se cobre. Identidade se revela.
Se queremos consolidar São Luís como um destino turístico de referência internacional, precisamos compreender que nosso maior espetáculo não está apenas nas festas que acontecem durante algumas semanas do ano, mas na arquitetura, nos azulejos, nos mirantes, nas ruas e na história que permanecem por séculos.
A festa passa. O patrimônio fica. E é justamente por permanecer que ele merece ser visto, admirado e preservado em toda a sua plenitude.




