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Relatos de turistas reacendem debate sobre segurança sanitária nas travessias dos Lençóis Maranhenses

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    reginaldorodrigues3
  • há 3 dias
  • 10 min de leitura

ICMBio confirma que apura informações; entidades defendem investigação técnica e especialistas alertam que o crescimento da visitação exige investimentos urgentes em saneamento, infraestrutura e qualificação dos pontos de apoio



Os relatos de turistas que apresentaram sintomas gastrointestinais após realizarem a travessia do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses acenderam um alerta sobre um tema que especialistas, gestores e representantes do setor turístico vêm discutindo há pelo menos um ano: a necessidade de aperfeiçoar a infraestrutura e a gestão de um dos principais produtos de ecoturismo do Brasil.


A investigação sobre a origem dos casos ainda está em fase inicial e, até o momento, nenhum órgão público confirma a causa dos sintomas. Também não há qualquer comprovação de que os episódios estejam relacionados à qualidade da água, à alimentação ou a qualquer outro fator específico durante a travessia.



Apesar disso, a apuração realizada pelo Portal Cazumbá revela que praticamente todas as instituições ouvidas concordam em um ponto: o crescimento acelerado da visitação tornou urgente a adoção de medidas capazes de garantir mais segurança aos visitantes, preservar o patrimônio ambiental e fortalecer as comunidades que vivem da atividade turística.


O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) confirmou que tomou conhecimento dos relatos e informou que está reunindo informações para definir as providências necessárias.

"O ICMBio está em busca de mais detalhes do ocorrido e depois irá consolidar informações para direcionar ações."

O órgão também lembrou que, antes mesmo dos relatos recentes, buscou parceria com o Sebrae para oferecer cursos voltados à manipulação segura de alimentos e boas práticas nos pontos de apoio utilizados durante as caminhadas.


ABAV confirma relatos e diz que preocupação é antiga


A presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens do Maranhão (ABAV-MA), Dayanna Barbosa, confirmou que a entidade recebeu informações sobre turistas que apresentaram sintomas gastrointestinais após a travessia.


Entretanto, ela faz um alerta para que qualquer conclusão seja baseada em critérios técnicos.

"Recebemos essas informações com responsabilidade e entendemos que é fundamental aguardar a apuração técnica dos órgãos competentes para identificar as causas dos casos e evitar conclusões precipitadas."

Segundo Dayanna, independentemente do resultado da investigação, os acontecimentos reforçam a necessidade de acelerar medidas que já vinham sendo discutidas para aperfeiçoar a operação das travessias.


Ela lembra que o trabalho começou ainda durante o processo que levou os Lençóis Maranhenses ao reconhecimento como Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO.



Desde então, a entidade passou a acompanhar reuniões promovidas pelo ICMBio sobre manejo do uso público e desenvolvimento sustentável.


Em setembro de 2025, representantes da ABAV participaram de uma reunião do Conselho Consultivo do Parque Nacional, ocasião em que foram apresentados estudos relacionados à balneabilidade das águas, além de discussões sobre conservação ambiental e desafios da visitação.



Na semana seguinte, a entidade reuniu empresários do turismo receptivo para compartilhar as informações e iniciar um processo permanente de mobilização do setor.


Diagnóstico revelou fragilidades antes dos relatos


Percebendo a necessidade de aprofundar tecnicamente essas discussões, a ABAV Maranhão buscou uma parceria com o ICMBio para contratar um especialista em gestão ambiental e uso público em unidades de conservação.


O resultado foi um amplo diagnóstico sobre a operação das travessias.



O estudo identificou fragilidades relacionadas à governança, infraestrutura dos pontos de apoio, segurança dos visitantes, gestão dos fluxos turísticos, sustentabilidade e manejo do uso público, propondo diversas recomendações para aperfeiçoar a atividade.


Segundo Dayanna Barbosa, a partir desse levantamento a entidade passou a buscar recursos e parcerias para transformar as recomendações em ações concretas.


Entre elas estão:


  • Monitoramento ambiental;

  • Gestão participativa dos recursos hídricos;

  • Educação ambiental;

  • Fortalecimento das comunidades locais;

  • Melhoria da comunicação com os visitantes;

  • Implantação de sinalização educativa;

  • Qualificação permanente dos serviços turísticos.

"Os acontecimentos recentes reforçam a importância de acelerar ações que já vinham sendo planejadas e estruturadas. Somente a cooperação entre poder público, comunidades, iniciativa privada e entidades representativas permitirá fortalecer a gestão das travessias e garantir que os Lençóis Maranhenses permaneçam como referência mundial em turismo de natureza."

Outro ponto destacado pela presidente da ABAV é que a entidade não possui competência legal para fiscalizar estabelecimentos nem investigar questões sanitárias.



Segundo ela, essas atribuições pertencem às Vigilâncias Sanitárias e aos órgãos públicos competentes.


Ainda assim, o diagnóstico contratado pela entidade recomenda a implantação de protocolos integrados de segurança, critérios mínimos para infraestrutura dos pontos de apoio, capacitação permanente em segurança alimentar e criação de mecanismos de certificação dos empreendimentos que recebem turistas durante a travessia.



SEMA reforça que água das lagoas não é própria para consumo humano


Outro ponto importante da apuração veio da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema).


O órgão informou que realiza monitoramento periódico da qualidade das águas superficiais na região dos Lençóis Maranhenses, abrangendo pontos da bacia do Rio Preguiças, Rio Alegre e lagoas localizadas nos municípios de Barreirinhas, Santo Amaro do Maranhão e Paulino Neves.


A Secretaria esclareceu, entretanto, que esse monitoramento não corresponde ao controle da água consumida pelos visitantes durante as travessias.



Segundo a Sema, os dados técnicos existentes podem ser disponibilizados mediante solicitação formal, respeitando os procedimentos administrativos.


A Secretaria também destacou que atua de forma integrada com o ICMBio nas ações de monitoramento ambiental, mas lembrou que a gestão do Parque Nacional, incluindo regras de visitação e ordenamento do uso público, é atribuição do órgão federal.



Um dos esclarecimentos mais importantes encaminhados à reportagem diz respeito ao consumo de água nas lagoas.

"As lagoas naturais existentes no Parque não constituem sistemas de abastecimento de água potável, não recebem tratamento para consumo humano e, portanto, seu consumo não é recomendado sem tratamento prévio adequado."

Ao mesmo tempo, a Sema pondera que ainda não existe qualquer comprovação científica ligando os relatos de turistas à água das lagoas.

"Não é possível estabelecer relação entre eventuais relatos de sintomas gastrointestinais e a qualidade da água das lagoas sem a realização de investigação epidemiológica e análises laboratoriais específicas, conduzidas pelos órgãos competentes da área de saúde."

Para a Secretaria, o aumento da visitação reforça a necessidade de ampliar continuamente o monitoramento ambiental, a educação ambiental e as ações voltadas ao uso público responsável.


Secretaria de Estado da Saúde diz que não há registros oficiais


Procurada pela reportagem, a Secretaria de Estado da Saúde (SES) informou que não possui registros oficiais relacionados aos relatos de turistas que apresentaram sintomas gastrointestinais após a travessia.



Segundo a pasta, os atendimentos dessa natureza são realizados pelas redes municipais de saúde e, até o momento, nenhuma notificação oficial chegou ao Estado.


A Secretaria ressaltou ainda que, sem registros formais, não é possível emitir posicionamento técnico sobre os casos.


IGR defende protocolos regionais de qualidade


Embora afirme não ter sido comunicada oficialmente sobre os relatos, a presidente da Instância de Governança Regional (IGR) Lençóis e Delta, Aline Meirelles, entende que situações dessa natureza exigem reflexão e aperfeiçoamento permanente da atividade turística.



Segundo ela, o reconhecimento dos Lençóis Maranhenses como Patrimônio Natural da Humanidade ampliou a responsabilidade de todos os atores envolvidos na gestão do destino.

"Toda ocorrência que possa comprometer a experiência do visitante merece atenção."

Na avaliação da dirigente, o crescimento do fluxo turístico ocorreu em ritmo superior ao desenvolvimento da infraestrutura.

"O crescimento da visitação ocorreu de forma acelerada nos últimos anos e evidencia a necessidade de evolução contínua da infraestrutura e dos serviços ofertados ao longo das travessias. Esse é um processo que exige planejamento, investimentos e atuação integrada entre os setores público e privado."

Ela lembra que o ICMBio já estabeleceu regras para a atividade, mas entende que a melhoria depende da participação conjunta de todos os envolvidos.


A presidente da IGR também defende a implantação de protocolos mínimos para os pontos de apoio.

"A IGR entende que protocolos mínimos de qualidade podem contribuir para a padronização dos serviços, a segurança dos visitantes e a valorização dos empreendimentos que atuam de forma responsável, sempre respeitando as competências dos órgãos fiscalizadores e as legislações vigentes."

Segundo Aline, a entidade continuará atuando como articuladora entre governos, empresários e comunidades para transformar as recomendações do diagnóstico em ações concretas.


Sebrae destaca capacitações realizadas nas comunidades


O Sebrae Maranhão informou que, em 2025, desenvolveu um amplo programa de capacitação voltado aos empreendedores dos segmentos de alimentação e hospedagem das comunidades de Baixa Grande, Queimada dos Britos, Travosa e Betânia, localizadas no interior do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses.


As ações foram realizadas em parceria com o ICMBio, Secretaria Municipal de Turismo de Santo Amaro, Prefeitura Municipal e Governo do Estado.


Além dos cursos sobre Boas Práticas na Manipulação de Alimentos, consultores realizaram visitas técnicas aos pontos de apoio para avaliar condições de higiene, estrutura física, manipulação de alimentos, capacidade de hospedagem e aspectos ambientais.


Segundo o gerente da Unidade Regional Lençóis-Delta do Sebrae, David Amorim, esse trabalho resultou na elaboração de um documento técnico com critérios mínimos para funcionamento dos empreendimentos.


O material reúne orientações sobre segurança alimentar, requisitos de hospedagem, proteção ambiental e infraestrutura básica, tendo sido consolidado pelo ICMBio, responsável por sua implementação e acompanhamento.


O Sebrae ressalta que sua missão é orientar e qualificar os pequenos negócios, oferecendo consultorias especializadas por meio de programas como o Sebraetec, voltados à melhoria contínua dos serviços prestados aos visitantes.


Quem viu a travessia nascer faz um alerta


Poucas pessoas conhecem tão profundamente a evolução da travessia dos Lençóis Maranhenses quanto o guia de turismo Pedro Cardoso, considerado um dos precursores da atividade.


Há 41 anos, ele percorre dunas, lagoas e comunidades do interior do Parque.


Segundo Pedro, o turismo transformou profundamente a realidade das famílias que vivem nos oásis.


No início, lembra ele, as comunidades sobreviviam basicamente da agricultura, da pesca e da caça.


Hoje, grande parte da economia local depende diretamente do turismo.


Mas esse crescimento, afirma, não foi acompanhado pela infraestrutura necessária.

"A infraestrutura não acompanhou esse crescimento constante da caminhada."

Para o guia, ainda falta uma política permanente de capacitação voltada aos moradores que recebem turistas.

"Eu percebo uma ausência do poder público numa forma de capacitação de todos os oásis para manipulação de alimentos, água e organização, para proporcionar bem-estar ao turista e não ficar apenas pensando em lucros."

Pedro também chama atenção para um dos maiores desafios enfrentados atualmente: o saneamento.


Segundo ele, o aumento do número de visitantes exige soluções estruturantes.

"Há necessidade de todos os pontos dos oásis terem biodigestores, porque realmente o nosso solo é muito frágil e, com muita gente fazendo suas necessidades, pode haver contaminação."

Outro cuidado adotado pelo guia diz respeito ao consumo de água.

"Nas minhas caminhadas, eu só oriento que todos bebam água mineral."

Apesar dos desafios, Pedro faz questão de destacar que o turismo trouxe dignidade às comunidades tradicionais.

"Hoje o povo daquela região vive exclusivamente do turismo. Isso é bom. Eu fico muito feliz por essa transformação."

Diagnóstico aponta desafios antigos e propõe mudanças estruturais


Muito antes dos relatos recentes envolvendo turistas, um diagnóstico técnico elaborado a partir de parceria entre a ABAV Maranhão e o ICMBio já chamava a atenção para a necessidade de aperfeiçoar a gestão das travessias nos Lençóis Maranhenses.


O estudo identificou fragilidades relacionadas à governança, infraestrutura dos pontos de apoio, segurança dos visitantes, gestão dos fluxos, educação ambiental, sustentabilidade e manejo do uso público, propondo um conjunto de recomendações para elevar o padrão da atividade.


Entre as principais recomendações estão:


• fortalecimento da atuação do ICMBio na gestão da visitação;


• Definição de critérios mínimos para funcionamento dos pontos de apoio;


• Melhoria da infraestrutura sanitária;


• Implantação de protocolos de segurança;


• Educação ambiental permanente;


• Monitoramento da capacidade de carga das travessias;


• Certificação dos empreendimentos que recebem turistas;


• Fortalecimento das comunidades tradicionais;


• Investimentos em sustentabilidade e infraestrutura de baixo impacto ambiental.


Na avaliação dos especialistas, o objetivo não é limitar o turismo, mas garantir que ele continue crescendo sem comprometer a conservação do Parque Nacional e a qualidade da experiência oferecida aos visitantes.


Prefeituras não responderam aos questionamentos


Durante a apuração desta reportagem, o Portal Cazumbá encaminhou solicitações oficiais de esclarecimentos às Prefeituras de Barreirinhas e Santo Amaro do Maranhão, por meio dos contatos que dispomos.


Foram solicitadas informações sobre eventual investigação dos relatos, atuação das Vigilâncias Sanitárias, inspeções nos pontos de apoio e medidas adotadas para garantir a segurança alimentar durante as travessias.


Até o fechamento desta edição, nenhum dos dois municípios encaminhou resposta.


Mais do que investigar, é hora de agir


A investigação epidemiológica deverá esclarecer, nos próximos dias ou semanas, se existe alguma relação entre os relatos de turistas e fatores como alimentação, abastecimento de água ou outras condições encontradas durante a travessia.


Esse trabalho cabe aos órgãos competentes e deve ser conduzido com absoluto rigor técnico.


Entretanto, independentemente do resultado dessa investigação, uma conclusão já se impõe.


Os Lençóis Maranhenses mudaram.


O Parque Nacional deixou de ser um destino conhecido apenas por aventureiros e mochileiros para tornar-se um dos principais destinos de natureza do planeta, recebendo milhares de brasileiros e estrangeiros todos os anos.


Esse crescimento trouxe desenvolvimento econômico, gerou renda para centenas de famílias e transformou comunidades que antes sobreviviam da agricultura e da pesca em protagonistas do turismo de base comunitária.


Mas trouxe também novos desafios.


A infraestrutura que atendia pequenos grupos há vinte ou trinta anos já não é suficiente para atender centenas de visitantes por dia durante a alta temporada.


Chegou o momento de dar um novo salto de qualidade.


Mais do que responder ao episódio atual, é preciso construir uma política pública permanente para as travessias dos Lençóis Maranhenses.


Entre as medidas que merecem ser discutidas pelos governos federal, estadual e municipais, em parceria com o ICMBio, Sebrae, iniciativa privada e comunidades locais, destacam-se:


  • Programa permanente de qualificação dos proprietários e colaboradores dos pontos de apoio em segurança alimentar, manipulação de alimentos, hospitalidade, primeiros socorros e atendimento ao visitante;


  • Implantação de sistemas de energia solar, com apoio do Governo do Estado e programas de eficiência energética da Equatorial Maranhão, permitindo o funcionamento contínuo de refrigeradores e equipamentos essenciais em comunidades isoladas;


  • Instalação de banheiros ecológicos camuflados, integrados a biodigestores ou biofossas, reduzindo significativamente os riscos de contaminação do solo e dos lençóis freáticos;


  • Doação ou financiamento de refrigeradores de baixo consumo energético, garantindo o armazenamento adequado de alimentos perecíveis;


  • Programa permanente de monitoramento da qualidade da água, com análises periódicas e ampla divulgação dos resultados às comunidades, operadores e visitantes;


  • Implantação de um selo de qualidade para os pontos de apoio, certificando aqueles que cumprirem requisitos mínimos de higiene, saneamento, sustentabilidade, segurança e atendimento;


  • Criação de linhas de financiamento e programas de compensação ambiental, envolvendo instituições como BNDES, Petrobras, Vale, Alumar, Equatorial Maranhão e outras empresas com atuação socioambiental, destinadas exclusivamente à melhoria da infraestrutura das comunidades inseridas no Parque Nacional.


Essas iniciativas não devem ser encaradas como despesas.


São investimentos na preservação de um patrimônio natural reconhecido pela UNESCO, na valorização das comunidades tradicionais e na consolidação dos Lençóis Maranhenses como referência internacional em turismo sustentável.


Um patrimônio mundial exige padrões mundiais


Os relatos recentes ainda aguardam respostas.


As investigações seguem em andamento.


Mas o debate provocado por esse episódio talvez seja sua maior contribuição.


Ele evidencia que a proteção dos Lençóis Maranhenses não depende apenas da beleza de suas dunas e lagoas.


Depende da qualidade da água consumida pelas comunidades, da segurança dos alimentos servidos aos visitantes, do saneamento básico, da capacitação das famílias, do ordenamento da visitação, do compromisso dos operadores turísticos e da atuação integrada dos órgãos públicos.


Os Lençóis Maranhenses já conquistaram o reconhecimento do mundo.


Agora precisam conquistar um padrão de infraestrutura, segurança e sustentabilidade compatível com a grandiosidade do patrimônio que representam.


Mais do que uma resposta aos relatos atuais, esse é um compromisso com o futuro de um dos destinos mais extraordinários do planeta.


Imagens de Pedro Cardoso - Turismo & Aventura


 
 
 

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