São Luís mira futuro como destino turístico inteligente e especialistas apontam caminhos para transformar potencial em resultados
3ª Conferência Municipal de Turismo reúne especialistas nacionais, debate inovação, governança e qualificação dos serviços e coloca em pauta a construção do Plano Municipal de Turismo 2030.

São Luís tem história, cultura, gastronomia, patrimônio reconhecido mundialmente e belezas naturais que a colocam entre os destinos mais singulares do Brasil. Mas como transformar todas essas riquezas em desenvolvimento econômico, geração de oportunidades e experiências cada vez melhores para turistas e moradores?
Essa foi uma das principais reflexões da 3ª Conferência Municipal de Turismo, realizada nesta sexta-feira (9), na capital maranhense, com o tema “A transformação de São Luís em destino turístico inteligente”.

Promovido pela Prefeitura de São Luís, por meio da Secretaria Municipal de Turismo (Setur), o encontro reuniu gestores públicos, empresários, pesquisadores, estudantes e representantes da cadeia produtiva do turismo, além de especialistas convidados de diferentes regiões do país.
Entre os assuntos debatidos estiveram a inovação, a governança, a qualidade dos serviços, a valorização da identidade local e a elaboração do Plano Municipal de Turismo de São Luís 2030.
Plano de Turismo 2030: planejamento para além das gestões

Em entrevista exclusiva ao Cazumbá, a secretária municipal de Turismo em exercício, Sílvia Romano, explicou que São Luís integra um grupo de 21 municípios brasileiros participantes de uma iniciativa do Ministério do Turismo voltada à transformação dos destinos turísticos inteligentes.
Segundo ela, a conferência representa o início de uma construção coletiva, que terá continuidade com novos encontros e audiências públicas.
Questionada sobre como evitar que o Plano Municipal de Turismo se transforme em mais um documento institucional sem aplicação prática, Sílvia ressaltou que a proposta é estabelecer uma política pública capaz de orientar diferentes administrações municipais.

“O plano municipal de turismo é uma política pública direcionada para qualquer gestão, onde vai definir diretrizes, estratégias, metas e objetivos de forma clara e transparente para que toda a sociedade possa acompanhar os resultados”, afirmou.
A elaboração do documento conta com a parceria do Sebrae Maranhão, por meio do Programa Cidade Empreendedora, e deverá envolver representantes de toda a cadeia produtiva do turismo.
Curitiba mostra que inovação não depende apenas de dinheiro
A professora Juliana Medaglia, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), coordenadora do Observatório de Turismo do Paraná, apresentou a experiência de Curitiba como destino turístico inteligente.

Ao Cazumbá, ela explicou que os avanços alcançados pela capital paranaense estão relacionados principalmente à articulação entre instituições, empresas e profissionais do setor.
“O que fez diferença para Curitiba estar se destacando nacionalmente como um destino turístico inteligente não foram grandes investimentos financeiros, foi, na verdade, um ecossistema de inovação ligado ao turismo bem ativado”, destacou.
Para Juliana, São Luís demonstra condições de seguir caminho semelhante, desde que consiga fortalecer a integração entre os diferentes atores do turismo.
A especialista também chamou atenção para a necessidade de escuta ativa, observando que muitas vezes instituições e empresários estão mais preocupados em defender seus próprios interesses do que em construir projetos coletivos.
“São Luís é um diamante bruto que pode ser lapidado”
Uma das declarações mais marcantes da conferência veio do professor Tiago Mondo, de Florianópolis, especialista em qualidade dos serviços turísticos.
Depois de passar uma semana conhecendo São Luís, ele afirmou que a capital maranhense possui condições de competir com destinos consolidados do turismo brasileiro.
“São Luís é um diamante bruto que pode ser lapidado. A gente pode ter uma infinidade de produtos turísticos e experiências utilizando a identidade local, o patrimônio cultural, o patrimônio natural e o povo maranhense”, declarou.
Tiago destacou que a competitividade de um destino não depende apenas de seus atrativos, mas também da qualidade dos serviços oferecidos em hotéis, restaurantes, pousadas e demais equipamentos turísticos.
O especialista chamou atenção para a necessidade de capacitação permanente e valorização dos trabalhadores, lembrando que a rotatividade da mão de obra representa um desafio para o turismo brasileiro.
O ludovicense precisa redescobrir São Luís
O sentimento de pertencimento também entrou na pauta da conferência.
O turismólogo Lucas Gamonal apresentou o projeto #JFpramim, desenvolvido em Juiz de Fora, Minas Gerais, com o objetivo de despertar nos moradores o orgulho pela própria cidade.
A iniciativa utilizou ações culturais e materiais promocionais, como coleções de cartões-postais, para incentivar a população a reconhecer e divulgar as belezas do município.
“A gente tem que olhar um pouco com o olhar de turista para a nossa própria cidade, porque é isso que faz com que a gente consiga encantar o outro”, explicou.
Para Lucas, São Luís possui um patrimônio excepcional, reconhecido mundialmente, que precisa ser apropriado afetivamente pela própria população.
A experiência abre espaço para uma reflexão importante: de que adianta possuir um patrimônio reconhecido pela UNESCO se parte da população ainda não conhece ou valoriza plenamente essa riqueza?
Governança exige responsabilidades compartilhadas
O professor Carlos Eduardo Silveira, o Cadu, da UFPR, abordou a importância da governança e da distribuição de responsabilidades entre os diferentes integrantes do turismo.
Para ele, o desenvolvimento de um destino depende de articulação institucional, vontade política e, sobretudo, da capacidade de estabelecer objetivos comuns.
Em sua primeira visita a São Luís, o professor destacou a forte identidade cultural da cidade e a percepção de envolvimento da comunidade com suas manifestações e tradições.
Ele ressaltou que São Luís deve construir seu próprio modelo de desenvolvimento, respeitando suas particularidades, sem necessariamente reproduzir experiências de outras cidades.
Sebrae e Fecomércio reforçam parcerias e novos projetos
Representando o Sebrae Maranhão, o gerente da Unidade São Luís, Antonio Veras, destacou os avanços da capital na promoção turística e a importância da parceria estabelecida com a Prefeitura por meio do Programa Cidade Empreendedora.
Segundo Veras, o contrato firmado entre as instituições é o maior acordo direto de uma prefeitura municipal com o Sebrae no Brasil.
O dirigente também reconheceu o trabalho desenvolvido nos últimos anos pela Secretaria Municipal de Turismo, destacando a contribuição do ex-secretário Saulo Santos para o fortalecimento das parcerias institucionais.
Já o diretor executivo da Fecomércio-MA, Max de Medeiros, apresentou iniciativas voltadas ao fortalecimento do turismo e à integração das políticas públicas.
Entre elas, destacou o projeto Vai Turismo, que utiliza uma plataforma tecnológica para mapear políticas públicas e demonstrar os impactos econômicos dos investimentos no setor.
Max também apresentou o Conexão Turismo, iniciativa voltada ao intercâmbio turístico entre os estados da Amazônia Legal, com participação do Sistema Comércio, envolvendo Fecomércio, Sesc e Senac.
O dirigente reconheceu que desafios como a conectividade aérea ainda precisam ser enfrentados, mas defendeu a união das instituições como caminho para ampliar o desenvolvimento turístico.
Do discurso à prática: o desafio de São Luís
A 3ª Conferência Municipal de Turismo deixou uma mensagem importante: São Luís não precisa começar do zero, tampouco copiar modelos de outras cidades.
A capital maranhense já possui identidade, patrimônio, gastronomia, manifestações culturais e uma cadeia produtiva que vem conquistando espaço no mercado turístico.
O que precisa avançar é a capacidade de transformar essas potencialidades em políticas públicas permanentes, serviços qualificados, experiências diferenciadas e oportunidades econômicas.
A construção do Plano Municipal de Turismo 2030 representa uma oportunidade para estabelecer metas, responsabilidades e mecanismos de acompanhamento que ultrapassem os períodos de gestão.
São Luís não precisa reinventar sua vocação turística. Precisa organizar melhor aquilo que já possui, valorizar quem trabalha no setor e assegurar continuidade às políticas públicas.
Afinal, uma cidade turística verdadeiramente inteligente não é apenas aquela que encanta quem chega, mas também aquela que oferece oportunidades, qualidade de vida e orgulho a quem nela vive.








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