Cuxá com Juçara conecta sabores, produção e turismo rural na Ilha de São Luís
- reginaldorodrigues3
- há 3 horas
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Segundo dia de visitas percorreu propriedades de Cajupary e Nova Vida e revelou agricultura familiar, piscicultura, gastronomia, sustentabilidade e experiências que começam a formar um novo roteiro turístico na zona rural da capital

Depois de percorrer propriedades do Maracanã (leia aqui) no domingo (6), o trabalho de construção do roteiro rural Cuxá com Juçara teve continuidade nesta segunda-feira (7), com visitas a sítios e produtores de Cajupary e Nova Vida, na zona rural de São Luís.
Se no Maracanã a juçara aparece como uma das grandes referências do território, em Cajupary a vinagreira, matéria-prima fundamental do tradicional cuxá maranhense, assume o papel de produto-âncora. É dessa conexão entre territórios, produção, gastronomia e modos de vida que começa a ganhar forma o Cuxá com Juçara.
As visitas revelaram propriedades com características distintas, onde são encontrados piscicultura, hortaliças, frutas, criação de animais, apicultura, produção artesanal, fontes naturais de água e iniciativas de sustentabilidade. A proposta é fazer dessa diversidade uma experiência de turismo rural de base comunitária.
Da vinagreira ao prato de cuxá

Segundo Roseane Maia, consultora credenciada do Sebrae, o trabalho de diagnóstico e mapeamento em Cajupary começou em novembro do ano passado, identificando propriedades com potencial para integrar o roteiro.
“A proposta é ofertar uma experiência autêntica, imersiva e pedagógica, mostrando todo esse processo de produção, desde o plantio da vinagreira até a transformação no nosso prato típico maranhense, que é o cuxá”, explica.
O trabalho integra as ações do Cidade Empreendedora, desenvolvido pelo Sebrae em parceria com a Prefeitura de São Luís.

Roseane explica que a intenção não é simplesmente reunir sítios para visitação. Cada propriedade deverá desenvolver uma experiência própria, evitando a repetição de atrativos e fazendo com que o visitante tenha motivos para conhecer diferentes pontos do roteiro.
Famílias, grupos, estudantes e pessoas interessadas em natureza, gastronomia e cotidiano rural estão entre os públicos potenciais.
Aconchego da Gorda: liderança que mobiliza a comunidade

Uma das principais personagens dessa construção é Claudete Pereira, a Dona Gorda, proprietária do Aconchego da Gorda, em Cajupary.
Em cinco hectares, a propriedade reúne produção agrícola, criação de animais e beneficiamento de alimentos. Da macaxeira saem farinha, beiju, pudim e mingau. Também são cultivados milho, quiabo, maxixe e frutas, entre outros produtos.

“A gente agrega valor em tudo o que tem”, resume Dona Gorda.
O conceito de sustentabilidade está presente no cotidiano da propriedade. Um biodigestor transforma resíduos em adubo e gera gás, enquanto placas solares produzem energia. Até resíduos do processamento da macaxeira são aproveitados na alimentação de galinhas e suínos.
Mas é na articulação comunitária que Dona Gorda desempenha outro papel importante.
“Eu não queria um projeto para mim e outras pessoas lá fora. Eu queria um projeto que envolvesse a minha comunidade”, afirma.

Essa lógica faz com que aquilo que uma propriedade não produz possa ser adquirido do vizinho, fortalecendo uma pequena cadeia produtiva local.
Roseane destaca Dona Gorda como uma liderança que ajudou a aproximar os demais produtores. “Ela tem levantado aqueles produtores menores. A gente já viu um grande crescimento deles”, observa.
Piscicultura transforma água em produção

Na Piscicultura Elisa Maria, Elioberto Ferreira mostra como produção e sustentabilidade podem caminhar juntas.
O empreendimento começou há quatro anos com dois tanques e hoje possui 15 tanques circulares de geomembrana, com capacidade para cerca de sete mil peixes e produção média informada de aproximadamente 1,5 tonelada por mês.

Tilápia, matrinxã e pintado estão entre as espécies criadas. A água dos tanques, proveniente de poços artesianos, não é simplesmente descartada após o uso.
“A gente reutiliza na irrigação. Nada é descartado”, explica Elioberto.
Além dos peixes, a propriedade possui diversas frutíferas, feijão e macaxeira e prepara área para o cultivo de vinagreira.

O produtor já recebe visitantes, estudantes e grupos interessados em conhecer a piscicultura e experimentar o cotidiano rural.
“Nem todo mundo pode ter tudo. A gente pode agregar uma coisa que um não tem e o outro tenha. E aí trabalhar em conjunto”, destaca.
Fazendinha aposta na diversidade

Na Chácara Fazendinha, de Mauro Sérgio, a palavra-chave também é cooperação.
Milho, quiabo, maxixe, vinagreira e mel fazem parte da produção. Há ainda licores de diferentes sabores, azeite de coco babaçu, manteiga de garrafa e outros produtos, alguns fornecidos por parceiros.
“Aqui a comunidade tem muito isso de trabalhar em consórcio, todo mundo ajudando o outro”, afirma Mauro.

Apicultor, ele destaca a contribuição das abelhas para a polinização das plantações, além da produção de mel, pólen e própolis.
Nos quatro hectares da propriedade também são criados suínos, caprinos e bovinos. Um aviário está sendo preparado para a retomada da criação de aves de postura.

Marceneiro e carpinteiro há 36 anos, Mauro deixou a zona urbana e está há sete anos e oito meses no sítio.
“Meu propósito, meu foco é viver do sítio”, afirma.
Roseane Maia acompanha essa transformação e lembra que a Fazendinha ampliou consideravelmente sua produção desde o início do trabalho de mapeamento, incorporando novas culturas, mel e produtos artesanais.
Sitio MM terá experiência ligada as águas

Em Nova Vida, o Sítio MM, de Maricelia Martins Pinheiro, a Célia, apresenta uma possibilidade diferente dentro do futuro roteiro.
Em dois hectares e meio, há juçara nativa, buriti, coco, banana, sapoti, tangerina, mamão, criação de aves e piscicultura. A produtora também prepara compotas, doces e outros produtos para comercialização.
A propriedade, porém, guarda outro atrativo: três fontes naturais de água doce.
Segundo Roseane, a visita desta segunda-feira permitiu aprofundar o diagnóstico do Sítio MM e começar a desenhar uma experiência turística relacionada às fontes, ao banho, ao juçaral e à paisagem natural.

“A gente realmente não quer que um seja igual ao outro. Queremos que cada um tenha o seu próprio atrativo”, explica a consultora.
Atualmente, Célia cria tambatinga e pretende ampliar futuramente a piscicultura. A cooperação com os produtores vizinhos também integra seu cotidiano.
“É um ajudando o outro, um trazendo informação para o outro”, resume Maricelia.
Turismo também acontece no campo

Para o secretário municipal de Turismo de São Luís, Saulo Santos, o projeto amplia a própria compreensão sobre onde a atividade turística pode acontecer na capital.
“A gente entende que o turismo pode acontecer em qualquer território”, afirma.
Segundo o secretário, agricultura, pesca, gastronomia, natureza e saberes populares podem ser convertidos em experiências turísticas e, ao mesmo tempo, funcionar como alternativa de geração de renda e melhoria das condições de vida das comunidades.

O mapeamento em Cajupary contou ainda com o suporte da Secretaria Municipal de Agricultura, Pesca e Abastecimento (Semapa). Já o Sebrae participa da iniciativa por meio do Cidade Empreendedora.
Saulo explica que a intenção é adotar uma metodologia semelhante à utilizada na construção do roteiro Quilombo Cultural de São Luís, mas respeitando as particularidades da zona rural.

“É um turismo rural, de base comunitária, gastronômico, fazendo com que essa pegada do sentimento de pertencimento seja ainda maior para quem mora e reside aqui em São Luís”, destaca.
E existe um público prioritário bem perto dessas propriedades: o próprio ludovicense.
A proposta é estimular os moradores da capital a redescobrirem sua cidade e perceberem que São Luís também possui uma extensa zona rural, marcada por natureza, produção agrícola e modos de vida que resistem ao avanço da urbanização.
Cuxá com Juçara: uma Ilha além dos cartões-postais

Ainda em processo de formatação, o Cuxá com Juçara começa a desenhar uma rota em que cada parada poderá contar uma história diferente.
Em uma propriedade, o visitante poderá acompanhar a produção e provar sabores da agricultura familiar. Em outra, conhecer a criação de peixes e o reaproveitamento da água. Mais adiante, descobrir o trabalho das abelhas, produtos artesanais ou vivenciar um banho em fonte natural cercado pelo verde.

E, ao longo do caminho, encontrar a vinagreira que se transforma em cuxá, a juçara colhida no território, a farinha, o beiju, o peixe, o mel, as frutas e a comida preparada por quem vive da terra.
Ao aproximar Maracanã, Cajupary e comunidades do entorno, o futuro roteiro propõe mais do que acrescentar um novo produto à oferta turística da capital.
Propõe revelar uma outra São Luís: rural, produtiva, sustentável e comunitária, onde o turismo não precisa inventar cenários. A experiência já está ali, na terra, na água, nos sabores e, principalmente, nas histórias de quem vive e produz na Ilha.








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