Economia prateada: população 60+ desafia mercado e abre novas oportunidades de negócios no Maranhão
- reginaldorodrigues3
- há 2 dias
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Atualizado: há 6 horas
Rolê 60+ Conecta reuniu especialistas e empreendedores em São Luís e colocou em debate longevidade, empreendedorismo sênior, sexualidade, turismo e o protagonismo econômico de uma geração que ainda é pouco compreendida pelo mercado

O Brasil está envelhecendo, e rapidamente. Mas enquanto a longevidade avança e transforma o perfil da população, empresas, poder público e a própria sociedade ainda tentam compreender as dimensões econômicas, sociais e comportamentais dessa mudança.
Mais do que viver mais, uma parcela crescente da população chega aos 60 anos ativa, independente, consumindo, viajando, empreendendo, buscando novas experiências e tomando decisões sobre o próprio dinheiro. É nesse cenário que ganha força a chamada economia prateada, conjunto de atividades econômicas relacionadas às necessidades, desejos e ao poder de consumo da população madura.

Essa transformação esteve no centro das discussões do Rolê 60+ Conecta, realizado na tarde desta sexta-feira, 21 de agosto, nas dependências do Blue Tree Premium São Luís, na capital maranhense.
Idealizado para provocar reflexões e, principalmente, conexões em torno da longevidade, o encontro colocou em pauta temas que ainda recebem pouca atenção, como empreendedorismo sênior, novos mercados para consumidores maduros e sexualidade depois dos 60 anos.
Uma população que cresce e quer ser protagonista

Para a turismóloga e consultora em Turismo e Hotelaria Adriana Flexa, idealizadora e organizadora do Rolê 60+, a motivação para realizar o Conecta surgiu justamente da necessidade de colocar em evidência assuntos que não acompanham, na mesma velocidade, o envelhecimento da população.
“O que nos motivou foi trazer para a cena pautas que não estão sendo observadas pela sociedade. Muito se fala hoje que a população está envelhecendo, que daqui a alguns anos serão mais idosos do que jovens, mas pouco está se discutindo sobre políticas públicas e diversas outras pautas”, afirmou.

Nesta edição, duas vertentes receberam atenção especial: economia prateada associada ao empreendedorismo sênior e longevidade ativa, incluindo a sexualidade 60+.
A proposta, entretanto, não se encerra no evento. Segundo Adriana, o objetivo é fazer da longevidade uma pauta recorrente e criar outros formatos de encontros voltados para esse público.
“Pode ter certeza que sim. Essa vai ser uma pauta recorrente”, disse, antecipando iniciativas como clubes de leitura, cafés e outros modelos de eventos.
Um mercado que ainda não percebeu o tamanho da transformação

A discussão ganha dimensão econômica quando se observa que envelhecimento populacional não significa apenas aumento da demanda por saúde ou assistência. Significa também o surgimento de um consumidor com desejos, recursos, experiência e disposição para continuar participando ativamente da economia.
Ao abordar a economia da longevidade durante o encontro, Márcia Nadler chamou atenção justamente para a velocidade dessa transformação e para o fato de que boa parte do mercado ainda não compreendeu o fenômeno.

“O tamanho é exponencial”, destacou, ao mencionar dados sobre a frequência com que pessoas chegam às faixas dos 50 e 60 anos.
Para ela, ainda existe desconhecimento sobre o verdadeiro significado do mercado prateado.
“As pessoas ainda não entenderam o que é o mercado prateado, o que é o mercado da longevidade”, ressaltou.
Adriana Flexa compartilha dessa avaliação. Questionada se as empresas maranhenses já perceberam a potência econômica da população 60+, foi categórica:
“Ainda estamos dando os primeiros passos e é por isso que a gente vai fazer esse encontro de negócios. Essa é a provocação.”
Muito além de saúde e assistência
Um dos principais desafios apontados no Rolê 60+ Conecta é romper com uma percepção historicamente associada ao envelhecimento: a de enxergar a pessoa idosa predominantemente pela ótica da dependência, da doença ou da assistência.
A economia prateada propõe uma perspectiva muito mais abrangente.
A população madura compra roupas, frequenta academias, utiliza serviços de beleza, procura entretenimento, viaja, frequenta restaurantes, dança, investe em bem-estar, utiliza tecnologia e pode iniciar novos negócios.
“São muitos”, afirmou Adriana ao enumerar os setores com oportunidades. “Vou começar pela minha área: turismo, hotelaria e eventos. Mas também arquitetura, consumo de um modo geral, vestimentas, academias, produtos de beleza, farmácias de manipulação, porque a gente não fala só da doença, a gente fala da promoção da saúde.”
A lista ainda inclui transporte, serviços de acompanhantes, escolas de dança e inúmeras outras atividades.
Essa diversidade mostra que pensar a longevidade apenas como demanda para saúde pública ou previdência é reduzir a dimensão de uma das mais importantes transformações demográficas contemporâneas.
E o turismo? Está preparado para o viajante 60+?
No Maranhão, essa discussão encontra um setor especialmente estratégico: o turismo.
Com destinos que atraem visitantes nacionais e internacionais e uma cadeia formada por hotéis, pousadas, agências, receptivos, transportadoras, restaurantes, guias e prestadores de experiências, compreender o viajante maduro tende a se tornar cada vez mais importante.
Quando questionada se o mercado está preparado para atender esse público, Adriana Flexa não hesitou:
“Eu vou ser bem polêmica: não.”
Ela reconhece que algumas empresas já começaram a desenvolver produtos especializados, com cuidados específicos na elaboração dos roteiros e propostas alinhadas ao conceito de slow travel, que privilegia experiências realizadas em ritmo mais tranquilo e com maior conexão com os destinos.
Mas isso ainda não representa a maioria do mercado.
“Uma grande maioria das empresas ainda não está se conectando com esse público”, avaliou.
A constatação lança um desafio para o turismo maranhense: não basta pensar em acessibilidade física. É preciso compreender hábitos de consumo, ritmo das viagens, atendimento, comunicação, segurança, conforto, experiências desejadas e autonomia.
O viajante 60+ não constitui um grupo homogêneo. Há pessoas que procuram descanso e contemplação, enquanto outras querem aventura, cultura, gastronomia, natureza, festas e novas experiências.
Empreender depois dos 60
Outro aspecto discutido no encontro foi o empreendedorismo sênior.
Depois de décadas acumulando conhecimentos profissionais e experiências pessoais, chegar aos 60 anos pode representar, para muitas pessoas, não o encerramento da vida produtiva, mas o começo de uma nova atividade.
Adriana acredita que empreender nessa fase pode trazer benefícios que vão além da renda.
“Isso pode prolongar inclusive a vida da pessoa, porque ela vai continuar ativa cognitivamente, ativa economicamente, vai se sentir realizada por uma atividade que está fazendo e com prazer”, explicou.
Para ela, existe também uma diferença na relação com o trabalho.
“O empreendedorismo sênior vem com uma leveza diferente.”
Conhecimentos acumulados durante décadas podem, assim, transformar-se em consultorias, pequenos negócios, produção artesanal, serviços especializados, gastronomia, turismo, economia criativa e inúmeras outras atividades.

É também uma mudança de paradigma: sair da ideia de que envelhecer significa deixar de produzir para compreender que experiência e conhecimento constituem ativos econômicos.
Poder público também precisa olhar para a longevidade
Se as empresas precisam rever estratégias, o poder público também é chamado a responder a essa transformação.
Mobilidade urbana, acessibilidade, saúde preventiva, cultura, lazer, turismo, qualificação profissional e ambientes adequados são apenas algumas das áreas diretamente impactadas pelo envelhecimento populacional.
Adriana espera que as conexões iniciadas no Rolê 60+ Conecta resultem justamente em compromissos.
“Compromisso com olhar a cidade, com olhar as políticas públicas, com respeito à pessoa idosa, com respeito às suas limitações de mobilidade, com respeito à sua experiência de vida”, afirmou.
O desafio, portanto, ultrapassa a realização de um evento.
A longevidade também movimenta a economia

O debate realizado no Blue Tree Premium São Luís deixa uma provocação que deve permanecer muito além desta sexta-feira: o Maranhão está preparado para envelhecer?
E, sobretudo, seu mercado está preparado para atender pessoas que chegam aos 60, 70 ou 80 anos desejando continuar vivendo plenamente?
A longevidade exige políticas públicas e atenção à saúde, mas também envolve consumo, trabalho, empreendedorismo, viagens, lazer, sexualidade, cultura, convivência e autonomia.
Para as empresas, existe um mercado em expansão que precisa ser estudado sem preconceitos ou estereótipos. Para o turismo, surge um viajante que demanda produtos adequados, mas que não quer necessariamente ser tratado como alguém incapaz. Para o poder público, cresce a responsabilidade de construir cidades que acompanhem a mudança demográfica.
E para quem chega aos 60+, talvez esteja justamente aí a principal mudança de perspectiva proposta pelo Rolê 60+ Conecta: longevidade não significa retirar-se da vida econômica e social. Pode significar permanecer, ou voltar, ao centro dela.








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