Festa da Juçara: 57 anos de tradição, promessas não cumpridas e um parque que pede socorro
Sem a realização da tradicional festa no período esperado, ex-presidente da Associação do Parque da Juçara cobra explicações do governador Carlos Brandão. Comunidade reclama da falta de informações e das condições do espaço cultural.

Outubro chegou, mas o Parque da Juçara, no Maracanã, zona rural de São Luís, não vive a movimentação que tradicionalmente marca um dos períodos mais aguardados pela comunidade. A 57ª Festa da Juçara, uma das mais antigas e representativas manifestações culturais e gastronômicas do Maranhão, já deveria estar acontecendo. Entretanto, até esta segunda-feira (12), não há informações claras sobre sua realização.
O cenário é de incerteza para moradores, permissionários e pessoas que ajudaram a construir a história da festa. O que deveria ser um período de celebração, geração de renda e valorização da cultura popular deu lugar a reclamações sobre as condições do parque e cobranças por compromissos assumidos pelo poder público.
Ex-presidente cobra governador Carlos Brandão
Neste fim de semana, Mayara Marques, ex-presidente da Associação do Parque da Juçara, utilizou as redes sociais para manifestar sua indignação. Em vídeo gravado no próprio parque, ela dirigiu duras críticas ao governador Carlos Brandão, cobrando explicações sobre a festa e promessas feitas à comunidade.
"Governador Carlos Brandão, crie vergonha na sua cara. O senhor visitou aqui por várias vezes, o senhor prometeu inúmeras coisas", declarou.
Mayara, que afirma ter participado da organização da festa durante quase dez anos, lamentou a falta de informações aos permissionários e demais pessoas envolvidas na realização do evento.
"Estão querendo sepultar a nossa tradição, a nossa festa, onde organizei essa festa por quase 10 anos e todos os anos, ininterruptamente, nós organizamos e realizamos a Festa da Juçara", afirmou.
Segundo a ex-presidente, a comunidade sequer recebeu uma resposta definitiva sobre a realização da 57ª edição. Ela também questionou mudanças na gestão do espaço e associou a situação ao cenário político recente.
Uma tradição que nasceu da comunidade
A Festa da Juçara tem suas origens no trabalho e na dedicação de Rosa Mochel, reconhecida como criadora dessa manifestação que se tornou um dos símbolos culturais do Maracanã.
Ao longo de quase seis décadas, a celebração ultrapassou os limites da comunidade e passou a integrar a memória afetiva de milhares de maranhenses.
A importância da festa também está presente na música popular. A Companhia Barrica, uma das mais expressivas manifestações culturais do Maranhão, eternizou em suas composições referências ao Maracanã, às palmeiras de juçara, ao Buritizal e à história da comunidade, demonstrando como essa tradição se confunde com a própria identidade cultural da região.
A juçara, fruto tão presente na alimentação e na cultura maranhense, tornou-se protagonista de uma festa que reúne gastronomia, música, dança, manifestações folclóricas e convivência comunitária.
Festa da Juçara também é turismo e geração de renda
A importância da Festa da Juçara vai muito além da preservação de uma tradição gastronômica.
Durante sua realização, o Parque da Juçara recebe visitantes de diferentes bairros de São Luís e de outros municípios, atraídos pela oportunidade de degustar a juçara, conhecer os costumes locais e vivenciar uma experiência cultural característica da zona rural da capital.
A celebração movimenta pequenos empreendedores, comerciantes, produtores, cozinheiras, artistas e trabalhadores que encontram no evento uma importante oportunidade de geração de renda.
É também uma oportunidade de fortalecer o turismo cultural e comunitário, valorizando uma região que guarda importantes manifestações da identidade maranhense.
Por isso, a indefinição sobre a realização da festa não representa apenas a ausência de um evento no calendário. Significa também a perda de oportunidades econômicas e de visibilidade para a comunidade.
Parque da Juçara: promessas e abandono
Outro aspecto que chama atenção é a situação do próprio Parque da Juçara.
O espaço, que deveria oferecer infraestrutura adequada para receber moradores e visitantes, é alvo de reclamações sobre abandono e falta de manutenção.
Ao longo dos últimos anos, segundo representantes da comunidade, foram feitas promessas de melhorias e intervenções no parque, inclusive durante períodos eleitorais.
Entretanto, permanecem perguntas que precisam ser respondidas: quais melhorias foram efetivamente executadas? Quais investimentos estão previstos? Quem responde atualmente pela administração do espaço? E por que uma festa com 57 anos de história chegou a outubro sem uma definição pública sobre sua realização?
A preservação de uma manifestação cultural dessa importância exige planejamento, organização e compromisso permanente, não apenas ações pontuais.
Cazumbá cobra explicações ao Governo do Estado
Diante da situação, o Portal Cazumbá encaminhou à Secretaria de Estado da Comunicação Social (Secom) uma solicitação de esclarecimentos a ser direcionada à Secretaria de Estado da Cultura (Secma).
Entre os questionamentos estão os motivos pelos quais a 57ª Festa da Juçara ainda não aconteceu, a possibilidade de realização em 2026, a situação administrativa do Parque da Juçara e a existência de recursos e planejamento para recuperação do espaço.
Considerando que esta segunda-feira (12) é feriado nacional de Nossa Senhora Aparecida, o Cazumbá estabeleceu prazo até as 17h desta terça-feira (13) para o retorno oficial.
A manifestação do Governo do Estado, quando recebida, será objeto de uma nova reportagem, garantindo espaço para os esclarecimentos da Secretaria de Estado da Cultura e para as providências anunciadas.
Uma história que não pode ficar apenas na memória
O Maranhão é reconhecido pela riqueza de suas manifestações culturais. São João, Carnaval, festejos religiosos e tantas outras celebrações ajudam a construir a identidade do estado e movimentam a atividade turística.
Mas essa valorização também precisa alcançar as manifestações tradicionais que nasceram nas comunidades e sobreviveram graças à dedicação de seus moradores.
A Festa da Juçara é uma delas.
São 57 anos de história, de trabalho coletivo e de preservação de costumes que atravessaram gerações.
O que está em discussão não é apenas a realização de mais uma edição da festa. É o respeito à memória de Rosa Mochel, aos moradores do Maracanã, aos trabalhadores que dependem economicamente do evento e a todos aqueles que ajudaram a transformar a Festa da Juçara em referência da cultura popular maranhense.
Uma tradição de 57 anos não pode depender de promessas feitas a cada período eleitoral. Precisa de planejamento, continuidade e respeito à comunidade que a mantém viva.
E a pergunta que permanece é simples: afinal, haverá ou não a 57ª Festa da Juçara em 2026?]








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