Gonçalves Dias: há 203 anos nascia em Caxias o poeta que transformou o Maranhão em verso e símbolo do Brasil
- reginaldorodrigues3
- há 2 dias
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Autor da imortal “Canção do Exílio”, Antônio Gonçalves Dias nasceu em 10 de agosto de 1823, em terras caxienses, e tornou-se uma das maiores expressões do Romantismo brasileiro, levando para a literatura a natureza, a identidade e as raízes do país.

Neste 10 de agosto de 2026, completam-se 203 anos do nascimento de Antônio Gonçalves Dias, um dos maiores nomes da literatura brasileira e filho ilustre do Maranhão. Poeta, teatrólogo, professor, jornalista, pesquisador e intelectual, o caxiense atravessou o tempo com uma obra que ajudou a construir, pela palavra, uma ideia de Brasil.
Gonçalves Dias nasceu em 10 de agosto de 1823, no sítio Boa Vista, na região da Mata do Jatobá, então situada a cerca de 14 léguas da Vila de Caxias das Aldeias Altas. Era filho do comerciante português João Manoel Gonçalves Dias e da maranhense Vicência Mendes Ferreira.
O nascimento aconteceu em um período particularmente conturbado da história maranhense. Caxias ainda vivia as consequências dos conflitos relacionados à adesão do Maranhão à Independência do Brasil. João Manoel Gonçalves Dias, português, deixou a cidade com Vicência, então grávida, e refugiou-se no sítio Boa Vista. Foi nesse ambiente que nasceu aquele que viria a ser reconhecido como um dos primeiros grandes poetas nacionais.
De Caxias para Coimbra

A infância de Gonçalves Dias também esteve ligada à atividade comercial da família. Ainda menino, trabalhou como caixeiro e ajudou na escrituração da loja do pai. Mais tarde, iniciou os estudos de latim, francês e filosofia e, em 1838, seguiu para Portugal. Em Coimbra, concluiu os estudos secundários e ingressou na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde se aproximou das ideias do movimento romântico.
Foi durante sua permanência longe do Brasil que a saudade da terra natal alimentou uma das obras mais conhecidas da literatura brasileira: “Canção do Exílio”, escrita em 1843.
A célebre evocação da terra “onde canta o sabiá” ultrapassaria os limites da poesia e passaria a integrar o imaginário nacional. O Maranhão, sua paisagem, sua memória e o sentimento de pertencimento à terra brasileira permaneceriam profundamente associados à trajetória do poeta.
Além da Canção do Exílio, sua produção reúne obras como Primeiros Cantos, Segundos Cantos, Últimos Cantos, I-Juca-Pirama, Os Timbiras, Sextilhas de Frei Antão e o Dicionário da Língua Tupi, entre outros trabalhos.
Um poeta da identidade brasileira
Gonçalves Dias tornou-se uma figura central da primeira geração do Romantismo no Brasil. Sua literatura incorporou povos, paisagens e elementos culturais brasileiros, contribuindo decisivamente para a construção de uma literatura com identidade própria.
O material pesquisado destaca sua participação no desenvolvimento do Indianismo, ao lado de José de Alencar, e aponta que sua obra colaborou para incorporar uma ideia de Brasil à literatura nacional.
Mas sua atuação foi muito além da poesia

No Rio de Janeiro, trabalhou como professor de História e Latim no Colégio Pedro II e exerceu também o jornalismo, colaborando com periódicos como Jornal do Commercio, Gazeta Oficial, Correio da Tarde e Sentinela da Monarquia. Em 1849, participou da fundação da revista Guanabara, importante veículo do movimento romântico brasileiro.
Também esteve ligado à Secretaria dos Negócios Estrangeiros e integrou a Comissão Científica de Exploração, realizando estudos e viagens pelo país. Sua trajetória revela, portanto, um intelectual atento não apenas às letras, mas também à história, à cultura, à educação e à formação nacional.
Amor, poesia e Ana Amélia
A vida de Gonçalves Dias foi marcada ainda por uma história de amor que atravessou sua produção literária. Ana Amélia Ferreira Vale tornou-se uma de suas grandes inspirações.
Poemas como Seus Olhos, Leviana e, especialmente, “Ainda uma vez - Adeus”, estão relacionados a essa paixão. O casamento entre os dois, entretanto, não se concretizou. Segundo o material, a família de Ana Amélia se opôs à união em razão da origem mestiça do poeta, revelando o forte preconceito racial e social existente na sociedade maranhense daquele período.
O amor frustrado transformou-se em poesia e acrescentou à obra gonçalvina uma dimensão profundamente humana, marcada pela saudade, pela perda e pelo desencontro.
O mar como último destino

A vida de Gonçalves Dias terminou precocemente.
Depois de passar pela Europa em busca de tratamento de saúde, decidiu retornar ao Brasil em 1864, a bordo do navio Ville de Boulogne. Na madrugada de 3 de novembro daquele ano, a embarcação naufragou na costa maranhense. O poeta não conseguiu deixar o navio e morreu aos 41 anos.
Era um fim trágico para quem havia passado parte da vida cantando sua terra e desejando retornar a ela.
Um patrimônio de Caxias, do Maranhão e do Brasil
Mais de dois séculos depois de seu nascimento, Gonçalves Dias permanece como uma das maiores referências culturais produzidas pelo Maranhão.
Caxias não é apenas sua cidade de origem. É parte fundamental da geografia afetiva e histórica de uma obra que ganhou dimensão nacional. O menino nascido em um sítio da Mata do Jatobá, em meio às turbulências políticas do Brasil recém-independente, tornou-se poeta celebrado por algumas das maiores figuras das letras brasileiras e portuguesas.
Sua importância ultrapassa a literatura. Gonçalves Dias ajudou a colocar no centro da produção intelectual brasileira a paisagem, os povos originários, a natureza e o sentimento de pertencimento ao país.
Celebrar seus 203 anos de nascimento, portanto, significa também voltar os olhos para Caxias e para o Maranhão como territórios de memória, literatura e identidade.
E talvez poucas imagens expressem tão bem essa relação quanto aquela que atravessou gerações e tornou-se quase inseparável da própria ideia de saudade do Brasil: a terra das palmeiras e do canto do sabiá.
Fonte: O material que fundamenta esta matéria foi organizado pelo poeta e membro da Academia Caxiense de Letras Wybson Carvalho, tendo entre suas fontes a obra Vida e Obra de Gonçalves Dias, de Jomar Moraes.








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