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História do domingo: Feliz Dia dos Pais, papai

Dia dos pais


Às vezes, eu olho para o céu e, se consigo ver o sol, penso no fato de que ambos podemos ver o sol. Então, mesmo que a gente não esteja no mesmo lugar, estamos juntos.” 


Para entrar no clima da edição de hoje, esta música é pedida certa.


Aftersun

Dirigido por Charlotte Wells, Aftersun estreou em grandes festivais internacionais de cinema e foi considerado uma das obras mais aclamadas pela crítica e pelo público em 2022.


Retratando as lembranças da própria diretora, o enredo é bem simples: Sophie reflete sobre a alegria e a melancolia das férias que tirou com seu pai, Calum, em 1990, quando tinha apenas 11 anos.


• Misturando memórias reais e imaginárias, ela tenta reconciliar o pai que conheceu com a ausência do homem que desconhecia.


Navegar pelo passado é, por si só, uma tarefa que desafia as nossas verdades. Agora, pensar em memórias pelas lentes de uma pré-adolescente também traz curiosidade, insegurança e amadurecimento ao processo.


Priorizando a poesia visualAftersun usa o aspecto quente e acolhedor do verão para acompanhar os momentos leves entre pai e filha. Porém, quando a noite chega, a atmosfera atinge um tom denso e melancólico.


Durante as quase duas horas de filme, nada de muito espetacular acontece. Na verdade, longe de efeitos especiais, vemos o “espetáculo” nos detalhes.


Por trás dos dias de sol e drinks coloridos, o que realmente importa é o que passa despercebido: um silêncio durante o jantar, uma risada inoportuna ou um suspiro mais profundo.


• Ainda que seja difícil enxergar nossos pais como pessoas — e não como super-heróis —, a relação dos protagonistas cumpre esse papel com generosidade.


Sem mais spoilers, juntos, os atores conseguem transformar o simples em algo cheio de significado. Assim como muitos momentos da vida, Aftersun é sobre o que não foi dito — mas nunca precisou de palavras.


Feliz Dia dos Pais, papai

(Baseado em uma história real)

Quando a Clara era pequena, seus dias favoritos eram aqueles em que seu pai buscava ela e sua irmã na porta da escola.


Elas saíam do Colégio Santo Antônio e, com sorte, ainda ganhavam uma casquinha do McDonald's. Seguiam pela Praça da Liberdade até o seu lugar preferido: a biblioteca pública de BH.


Ele então passeava com Clara e sua irmã pelo acervo, retirando vários livros das estantes e contando, animado, as histórias de cada um.


As duas ouviam, fascinadas, enquanto ele, quase para si mesmo, falava de Erico Veríssimo, dos livros de comédia de Jô Soares, dos mistérios de Agatha Christie e do livro de Bernardo Guimarães, que se passava na sua cidade natal.


• Aos 12 anos, Clara ganhou de seu pai uma edição de bolso surrada de Dom Casmurro.


Naquele dia, ele passou horas falando sobre o grande dilema da traição de Capitu. Dele, Clara ouviu falar de Ana Terra, do Capitão Rodrigo com sua esposa Bibiana, do emplasto de Brás Cubas e da Anne Frank.


A cada conversa, viajavam por um mundo de ideias que passava da literatura para os filmes, a música e a história.


Quando ele se foi, um dos sentimentos mais inesperados que veio junto do luto foi uma tentativa desesperada de abraçar todas as ideias que esvaneceram junto de sua mente brilhante.


Antes disso, Clara nunca tinha pensado que, quando quem a gente ama se vai, as percepções dessa pessoa sobre o mundo, sobre nós, suas ideias e opiniões, também vão junto dela.


Ela passou a tentar agarrar o conhecimento que seu pai transmitia de forma tão despretensiosa. Pegou um caderninho e começou a fazer perguntas para sua mãe e seus tios.


• Quais eram as músicas favoritas dele?


• Quais livros ele mais lia?


• E filmes, quais o emocionavam?


Clara até chegou a uma lista bem interessante — por exemplo, descobriu que ele ouvia Kraftwerk, a banda eletrônica alemã, antes de todo mundo, no interior de Minas Gerais.


Descobriu que ele chorou copiosamente quando Freddie Mercury morreu e organizou uma ode ao Queen em Congonhas do Campo. Que ele sentou um dia sozinho para aprender a falar alemão.


Mas todas essas pinceladas lhe pareciam incompletas. A sua saga de reescrever a mente e as ideias de seu pai parecia não ter fim. Ela achava pecinhas esparsas de um quebra-cabeça que nunca iria completar.


Decidiu, então, depois de muitos anos, voltar à biblioteca. Quem sabe lá ela não encontraria seu pai.


• Em uma de suas idas a Belo Horizonte, Clara cruzou a Praça da Liberdade — desta vez, sozinha.


Ao chegar ao acervo, o cheiro dos livros guardados lhe foi estranhamente reconfortante. Ela descobriu que, em algum lugar da sua mente, ela sabia mais ou menos a localização de cada seção.


Foi remexendo pelas obras e percebendo que várias eram as mesmas edições que eles pegavam emprestadas e liam aos finais de semana. Estavam surradas, é claro, mas os desenhos das capas foram trazendo as memórias à tona.


Foi quando Clara percebeu que as histórias naquelas estantes também eram dela.


Ao folhear a seção de literatura brasileira, percebeu que também havia lido O Tempo e o VentoIncidente em AntaresAssassinatos na Academia de LetrasEsaú e Jacó.


Percebeu que o Tolstói e o Dostoievski não eram mais nomes estranhos e que muitos outros livros, que faziam parte da mente do seu pai, agora eram velhos conhecidos.


As ideias de seu pai foram a fundação para as suas próprias ideias. E, embora ela jamais seja capaz de recompor a mente dele, existe uma parte de seu legado que segue viva na sua própria forma de ver o mundo.


• Infelizmente, a verdade é que ela não concluiu que o seu pai será eterno e nem se reconfortou tanto assim. O luto tem dessas: não existe muito como ter final feliz.


Ao caminhar pela biblioteca — que era o lugar deles —, Clara percebeu que as impressões que seu pai deixou nela são suficientes para que ela conserve seu maior tesouro: uma pequena parte dele, ainda que fração do todo, que ela teve a sorte de conhecer tão de perto. Feliz Dia dos Pais, papai.


Texto e imagens: The stories/Reprodução

 
 
 

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