História do domingo: Nada é por acaso
- reginaldorodrigues3
- 24 de ago. de 2025
- 4 min de leitura
Efêmero
“O momento atual é autoritário porque é efêmero e não se permite ficar. Não é possível segurar um momento. Aos momentos, resta-nos abraçá-los ou devorá-los, já que não podemos amarrá-los.”
Para entrar no clima da edição, dê o play nesta música aqui. 🤏
As horas do dia


Este trecho, de Leda Cartum, reflete sobre a condição humana diante da passagem do tempo e da inevitável perda que acompanha cada instante vivido.
Ao afirmar que não é possível “dobrar os momentos e guardá-los no bolso”, ela evidencia a nossa frustração diante do desejo de conservar experiências que, por natureza, são passageiras.
• Sabe quando um momento é tão especial que dá vontade até de fechar os olhos para vê-lo melhor e tentar guardá-lo na memória?
Podemos até fazer isso, mas logo percebemos que é inútil. O presente, descrito como autoritário justamente por ser efêmero, mostra como somos obrigados a submeter-nos ao fluxo constante do tempo.
Ele acontece, se impõe e logo desaparece, sem nos permitir escolha. Sem pedir licença para partir.
Diante disso, a única opção possível é viver o instante, seja acolhendo-o com delicadeza ou devorando-o com urgência, na tentativa de extrair-lhe toda a intensidade.
Ainda assim, qualquer gesto de retenção se desfaz em poeira, lembrando-nos que a vida não se deixa armazenar.
• E aí, o que sobra é apenas a poeira do próximo momento: uma sucessão contínua e incontrolável de presentes que não podem ser guardados.
Mas, como Mario Quintana dizia que “eternas são as nuvens”, de alguma forma, esses momentos permanecem conosco. Uma história só nossa, que não dá para apagar.
Porque essa é a história que fica — e não apenas o que queremos que permaneça. Ela fica de um jeito real: bonito e feio, feliz e triste. Porque “as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.”
Nada é por acaso
(Baseado em uma história real)

Felipe nunca imaginaria que perder um voo mudaria tanto o rumo de sua vida. Era 12 de setembro de 2024. O gaúcho, de 44 anos e recém-separado, estava em São Paulo para uma feira quando o mau tempo no Sul cancelou seu retorno.
• Após um dia inteiro no aeroporto, ele e os colegas receberam hospedagem no centro da cidade, fornecida pela companhia aérea.
O hotel ficava em frente ao Bar Brahma, onde, como cortesia, ganhavam um chope — pelo menos o início da noite estava garantido.
Música boa, conversa solta e cerveja gelada. Nada indicava que o acaso preparava algo maior.
Até que, em meio à movimentação, alguém esbarrou na cadeira do Felipe. Era Juliana. Morena, 30 anos, advogada mineira, mas radicada em Vitória.
De início, ele acreditou que ela estivesse acompanhada — havia um paletó na cadeira dela, e o grupo ao redor parecia de colegas. Mas os olhares se cruzaram quando ela voltou do banheiro.
• Felipe começou a prestar atenção aos seus gestos, seu perfume e na forma como ela mexia discretamente no bolso do paletó.
Foi então que Juliana tomou coragem: estendeu pelas costas um cartão de visita amassado.
Ele sorriu, salvou o número no celular e os dois iniciaram uma conversa pelo WhatsApp — sentados lado a lado, cadeiras encostadas e trocando mensagens pelo telefone.
Parecia uma cena de filme: aquele encontro inesperado entre o acaso e a sorte. Como gostam de dizer por aí: “o desejo está realmente ligado à contingência do encontro.”
Juliana explicou que estava em São Paulo para um congresso de Direito Tributário. O paletó, afinal, era do chefe.
• Aos poucos, o papo ficou mais íntimo, até decidirem sair dali. Quando se encontraram na porta do bar, apresentaram-se oficialmente e pegaram um táxi.
O primeiro destino estava fechado, mas encontraram outro barzinho próximo, iluminado por velas. Mal chegaram e o inevitável aconteceu: um beijo intenso, arrebatador, daqueles que aceleram o coração.
A química era tão forte que resolveram prolongar a noite. Entre confidências, risadas e carinhos, terminaram no hotel dele.
Na manhã seguinte, Juliana saiu vestindo uma camiseta antiga de Felipe, como se levasse consigo uma lembrança daquela noite que nenhum dos dois queria encerrar.
O que deveria ter sido apenas um encontro casual virou uma história em aberto. Mesmo antes de Felipe embarcar para casa, já trocavam mensagens.
• Ele sentia que nada era por acaso: perder o voo, aceitar a cortesia do bar, o esbarrão… Tudo parecia costurado pelo destino.
Após algum tempo, eles decidiram marcar um segundo encontro, apenas para matar a saudade. O local escolhido foi Belo Horizonte, onde Juliana tinha uma reunião de trabalho.
Foram dois dias grudados, dançando sozinhos no quarto do hotel, rindo como velhos conhecidos. A intimidade era tamanha que parecia que estavam juntos há anos.
Felipe se sentia encantado por ela — e Juliana parecia sentir o mesmo. Viveram momentos inesquecíveis, mas logo lembraram que “nenhum momento se rende à nossa tentação de retê-lo.”
Rio Grande do Sul e Espírito Santo não cabiam em um mapa pequeno. Mas a saudade, como dizia a frase que os dois repetiam, era “o azar de quem teve muita sorte”.
Criaram uma playlist no Spotify para “se ouvirem” através das músicas e trocaram reels, mensagens e lembranças diárias.
• Entre carinho e incerteza, Felipe e Juliana continuavam alimentando aquela conexão improvável.
O futuro ainda é um ponto de interrogação, mas, no fundo, Felipe sabe que cada instante valeu a pena — porque algumas histórias, ainda que marcadas pela distância, parecem escritas para acontecer.
Texto e imagens: The stories/Reprodução












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