História do domingo: Nós vamos ficar juntos novamente
- reginaldorodrigues3
- 3 de ago. de 2025
- 5 min de leitura
Não se perca
“Se estiver tudo errado, comece novamente. se estiver tudo certo, continue. se sentir saudades, mate-a. se perder um amor, não se perca! se o achar, segure-o!”
Para entrar no clima da edição de hoje, esta música é pedida certa. 👁️
O risco


Este texto da Ana Jácomo é um convite à coragem de mudar, mesmo quando o conforto antigo ainda nos veste bem.
Ele fala sobre o momento em que a vida pede passagem, em que algo dentro de nós — mesmo sem sabermos exatamente o quê — anseia por novidade, por crescimento e por verdade.
• É quando tudo ao nosso redor ainda parece o mesmo, mas por dentro já não cabe mais.
As “roupas usadas” são metáforas para hábitos, afetos, lugares e até as versões de nós que já se ajustaram ao que fomos, mas que agora nos apertam. Não fazem mais sentido.
É preciso coragem para deixá-las para trás, pois é confortável seguir os mesmos caminhos, mesmo quando eles nos levam aos mesmos vazios.
A travessia de que ela fala não é uma viagem concreta, mas um movimento interno: o de atravessar o medo, o apego e o costume. Como já dizia Anaïs Nin, “a vida encolhe ou se expande na proporção da sua coragem.”
E o mais bonito — e duro — da frase final é essa lembrança de que, se não fizermos esse gesto e não ousarmos atravessar, podemos acabar ficando à margem de nós mesmos.
Podemos acabar como alguém que assiste à própria vida da calçada, sem jamais se lançar. A travessia é o risco necessário para viver — e talvez para amar também.
Nós vamos ficar juntos novamente
(Baseado em uma história real)

Edna e Wanderley se conheceram em um ponto de ônibus, voltando do colégio, em 1968. Ela tinha 12 anos e ele, 15.
• Como se encontravam todos os dias, Edna conta que, na sua cabeça, já namorava com ele — só Wanderley que ainda não sabia.
Alguns anos depois, começaram oficialmente o namoro. Eram muito companheiros e adoravam sair para dançar nos clubes da época.
No início, os pais de Wanderley achavam Edna meio hippie — suas roupas nada discretas contribuíam, rs — mas logo criaram um laço muito forte. Conversavam horas e horas na mesa do almoço.
Em 1978, algumas brigas pontuais começaram a acontecer. Em uma delas, no dia 23 de maio, decidiram terminar.
Durante alguns poucos meses separados, Wanderley se envolveu com outra mulher, que acabou engravidando.
• Por respeito à situação, após uma conversa com o pai dela, ele optou por assumir o relacionamento.
No dia 10 de dezembro, Wanderley se casou. Edna conta que foi ao casamento escondida porque queria ter certeza de que ele teria coragem de se casar com outra pessoa.
Na metade da cerimônia, ela saiu da igreja. Em suas palavras: “não aguentou ver outra mulher casando com o amor da sua vida.”
Os dois tinham vários amigos em comum, e Edna tinha certeza de que ainda iriam se reencontrar. Para ela, aquela história não havia acabado — era muito bonita e genuína para terminar assim.
Pouco tempo depois, Wanderley mudou-se para outro estado. Edna, por sua vez, foi embora de Campinas para São Paulo.
• Cinco anos depois, ela se casou, voltou para Campinas e teve seu primeiro filho em novembro de 1983.
Foi nesse mesmo mês que Edna e Wanderley, sem querer, se esbarraram em um supermercado da cidade. Foi a primeira vez que se viram desde a separação — cada um com seu respectivo cônjuge.
Em 1995, Edna se separou. Algum tempo depois, soube que Wanderley também havia se separado.
Na época, uma amiga perguntou: “E agora?”. Sem pestanejar, Edna respondeu: “Agora, eu vou esperar meus filhos crescerem. Daqui a algum tempo, nós ficaremos juntos de novo.”
Antes do reencontro de fato acontecer, o pai de Edna sofreu um AVC e ficou em estado vegetativo. Quando soube, a irmã de Wanderley, que é fisioterapeuta, ligou para a mãe de Edna oferecendo ajuda.
Ela passou a ir lá todos os dias, ajudando a mãe da Edna a alimentar seu marido e auxiliá-lo com alguns movimentos.
Em uma dessas visitas, Edna estava em casa, e as duas conversaram bastante. Papo vai, papo vem, a irmã de Wanderley sugeriu que ela passasse na casa dos seus pais.
• Edna diz que, ao chegar, parecia que nunca tinha saído de lá. Sentiu-se em casa.
Eles comeram bolo e bateram muito papo. A sensação era de que aqueles 19 anos nunca haviam passado. Quando o café ficou pronto, Edna olhou para a porta, e lá estava Wanderley.
Ela disse que foi a primeira vez que eles se tocaram depois da separação. Se sentiram novamente, puderam olhar nos olhos um do outro — ela até lembrou daquela música da Maria Bethânia.
Wanderley se juntou à conversa, confirmou a separação e disse que estava voltando para Campinas com os três filhos e a ex-mulher.
Após esse encontro, marcaram um café — que virou dois ou três por semana. Conversaram bastante, tinham muitas coisas para atualizar. Falavam de tudo, menos dos dois.
Até que, um dia, ele tomou coragem e disse: “Eu te esperei por 19 anos. Só quero que você saiba que, se for necessário, eu espero mais 19 para ter você novamente ao meu lado.”
• Edna conta que, naquele dia, decidiu que enfrentaria qualquer coisa para viver essa história de amor.
Pediu transferência para o “estado mais longe possível” e Wanderley trocou de emprego para acompanhá-la. Em 1998, mudaram-se para Natal, no Rio Grande do Norte, com os dois filhos da Edna.
Maria Clara, filha mais nova, diz que o mais engraçado é que, passado algum tempo, seu pai e seu padrasto ficaram amigos. Criaram uma rotina gostosa de finais de semana com churrasco.
Ela conta que sua mãe e Wanderley realmente tiveram um encontro de almas. Se davam muito bem, riam muito e adoravam passear.
Depois da aposentadoria, Maria Clara cansou de ligar para eles numa terça-feira qualquer e ouvir que estavam a três horas de distância, em alguma cidadezinha, só para almoçar.
• Wanderley acolheu Maria e seu irmão como se fossem filhos dele também. Ela diz que ganhou tios, outro avô, outra avó e um pai.
Ele a amava como pai. Ensinava como pai. Dizia que “nunca teve filha mulher porque já estava escrito que Maria Clara seria sua filha também.”
Mas a parte difícil da história começa agora: em 2023, Wanderley sofreu um infarto fulminante no dia 6 de agosto — uma semana antes da celebração do Dia dos Pais.
Maria perdeu um amigo, um pai e um companheiro de vida. Perdeu quem passava horas cozinhando com sua mãe, entre temperos, risos e histórias. Perdeu seu jardineiro favorito, que cultivava com carinho todas as flores da casa.
Sua família perdeu o avô mais amoroso e presente, que continua sendo, até hoje, uma referência gigantesca de afeto, firmeza e alegria para os dois netos.
• Edna diz que, quando ele foi embora, Wanderley levou uma parte de quem ela é. Parece que está sempre faltando alguma coisa.
Nas suas palavras: “Relembrar os momentos bons é o que dá força para viver hoje, que é vazio. Hoje, tudo é esquisito.”
Ainda assim, ela afirma que não se arrepende de nada do que viveu, pois sabe que teve uma história linda — e só pode reconhecer isso porque sente essa ausência no presente.
Edna não perdeu apenas um amigo: Ela perdeu o grande amor da sua vida, o amor que esperou 19 anos para reencontrar e com quem passou os melhores 30 anos da sua vida.
Texto e imagens: The stories/Reprodução












Comentários