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Maranhão ganha primeiro centro especializado em reabilitação e despetrolização de animais marinhos

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    reginaldorodrigues3
  • há 5 horas
  • 5 min de leitura

Inaugurado neste domingo (23), em São Luís, CRD Amares amplia capacidade de resposta a encalhes e emergências com óleo e reúne atendimento veterinário, pesquisa e educação ambiental



O Maranhão passou a contar, neste domingo, 23 de agosto, com uma estrutura inédita para a proteção de sua biodiversidade costeira e marinha. Foi inaugurado, no bairro Monte Castelo, em São Luís, o Centro de Reabilitação e Despetrolização de Animais Marinhos (CRD AMARES), primeiro do gênero no estado, destinado ao resgate, tratamento e reabilitação da fauna marinha, inclusive de animais atingidos por óleo.


A cerimônia reuniu representantes de instituições ambientais, pesquisadores, universidade, Petrobras, parceiros e convidados do Maranhão e de outros estados. O Cazumbá acompanhou a inauguração e ouviu representantes do Amares, Petrobras, Ibama, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e Universidade Federal do Maranhão (UFMA).



Em um estado com mais de 600 quilômetros de costa, extensos manguezais e uma rica biodiversidade de aves, tartarugas e mamíferos marinhos, o novo centro amplia a capacidade de resposta a animais encalhados, feridos, doentes ou afetados pela ação humana e por acidentes ambientais.


Uma nova etapa para o Amares


Fundado em 2008, o Instituto Amares iniciou sua trajetória atendendo encalhes de baleias e golfinhos no litoral maranhense e mantém uma base em Atins, na região dos Lençóis Maranhenses.



Para a bióloga e médica-veterinária Nathalie Ristau, fundadora do Instituto Amares, a inauguração materializa uma construção feita ao longo dos anos por muitas mãos.


“Conservação não se faz sozinha, conservação não se faz olhando para si, olhando para dentro. Se faz olhando para frente, para todos e para o todo”, afirmou durante a solenidade.


Ao Cazumbá, Nathalie explicou que o CRD supera limitações enfrentadas até então no atendimento aos animais.


“Hoje a gente tem uma estrutura que atende 100% às necessidades dos animais que encalham no estado do Maranhão”, destacou.



A unidade foi projetada não apenas para receber os animais, mas também para atender às exigências sanitárias e ambientais. No caso da despetrolização, por exemplo, o resíduo proveniente da lavagem do animal contaminado recebe tratamento adequado, evitando seu lançamento na rede pública.


Segundo Nathalie, o centro também permitirá capacitar profissionais locais e ampliar a produção de informações sobre a biodiversidade da costa maranhense.


Petrobras e a Margem Equatorial



A nova estrutura também está relacionada à necessidade de ampliar a capacidade de resposta ambiental diante das atividades planejadas pela Petrobras na Margem Equatorial.


O analista ambiental da Gerência de Licenciamento e Meio Ambiente da Petrobras, Humberto Prates, explicou que a empresa identificou a necessidade de fortalecer esse tipo de atendimento no Maranhão.


“Quando a Petrobras desenvolveu o seu portfólio de negócios, seu plano de negócios na Margem Equatorial, a gente viu que o Maranhão estava precisando também. Vimos que seria importante investir aqui para ter um centro tão bom e especializado quanto os outros que temos ao longo do Brasil”, afirmou.



Prates ressaltou que a prevenção é prioridade operacional, mas que estruturas de contingência precisam estar preparadas.


“Trabalhamos com o maior rigor possível para que não aconteça nenhuma emergência, mas, em caso de acontecer, é importante ter essas instalações já operacionais e com capacidade para dar pronta resposta”, disse.


Para o representante da Petrobras, o ganho ultrapassa as necessidades de um empreendimento específico, pois deixa para a sociedade maranhense uma estrutura moderna voltada à conservação da biodiversidade.


Ibama: uma lacuna preenchida



André Favaretto Barbosa, do Ibama, que atua na área de licenciamento ambiental, destacou que o Maranhão não dispunha de uma estrutura dedicada e especializada desse porte para receber animais aquáticos e marinhos.


“Os animais chegam debilitados por diversas razões, inclusive naturais ou antrópicas, causadas pelo próprio homem, e a gente não tinha para onde direcionar esses animais com uma estrutura especializada e com esse nível de qualidade”, explicou ao Cazumbá.


Segundo André, o estado passa a dispor de equipamentos, instalações e equipes capacitadas para resgatar e atender esses animais.


A mudança é especialmente importante diante de um eventual vazamento de petróleo. Nesses casos, o animal atingido pelo óleo é resgatado, passa inicialmente por estabilização clínica e depois pela despetrolização. Na sequência, é reabilitado até que, havendo condições, possa retornar à natureza.


“Esses animais, sozinhos, sem nenhuma intervenção humana, vão a óbito. Eles não têm condições de se recuperar sozinhos”, alertou.


André chamou atenção especialmente para as aves marinhas, consideradas altamente vulneráveis à contaminação por óleo.


ICMBio: suporte às unidades de conservação


Para o ICMBio, o CRD fortalece uma parceria que já vinha funcionando na prática.


Rogério Funo, chefe do Núcleo de Gestão Integrada do ICMBio em São Luís, lembrou que o órgão administra cinco reservas extrativistas que abrangem boa parte da costa maranhense e onde são registradas ocorrências envolvendo fauna aquática.


“Com um centro de reabilitação bem estruturado, isso vai ajudar bastante a ter um atendimento melhor a essas ocorrências”, avaliou.


Já Cláudio Pereira, gestor do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, destacou que a unidade de conservação possui aproximadamente 80 quilômetros de área marinha costeira e enfrenta ocorrências envolvendo diferentes espécies.


“Temos muitos incidentes ambientais com fauna marinha. Então, temos a quem pedir suporte. Como a nossa equipe lá do Parque Nacional é pequena, isso faz muita diferença para a conservação”, afirmou.


Cláudio também sinalizou a possibilidade de avançar para uma cooperação técnica formal entre ICMBio e Amares.


Pesquisa e formação profissional



Além do resgate e tratamento dos animais, o CRD nasce com a proposta de ser espaço para ciência, formação e educação ambiental.


Para Eduardo Bezerra Almeida Jr., da área de pesquisa da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), a estrutura aproxima o conhecimento produzido na universidade das necessidades da sociedade.


“É muito gratificante para a gente, como instituição, perceber que temos mestres e doutores devolvendo para a sociedade o que aprenderam na universidade”, afirmou.


Segundo Eduardo, já existem conversas para futuras parcerias que permitam estágios, pesquisas e atividades práticas.



“A gente já falou nos bastidores de buscar esses convênios para ser também um laboratório para os alunos poderem estagiar, contribuir e aprender na prática”, revelou.


O centro também deverá receber escolas, aproximando crianças e adolescentes das ações de conservação da fauna e dos ecossistemas marinhos.


Auditório homenageia Luiz Phelipe Andrès



A cerimônia teve ainda um momento de emoção com a inauguração do Auditório Luiz Phelipe Andrès, homenagem ao engenheiro, escritor e membro da Academia Maranhense de Letras, reconhecido por sua atuação em defesa dos patrimônios cultural e natural do Maranhão e pelo incentivo ao Instituto Amares.


A presidente da Fundação Municipal de Patrimônio Histórico de São Luís (FUMPH), Kátia Bogéa, que não pôde comparecer presencialmente, enviou mensagem destacando o legado do homenageado.


“É uma homenagem muito grande a esse homem que defendeu as nossas embarcações tradicionais, os nossos manguezais, o nosso mar, os nossos animais”, ressaltou.



Presente à cerimônia, Luiz Francisco Andrès Júnior, filho de Luiz Phelipe Andrès, falou ao Cazumbá sobre a emoção da família.


“Eu tenho emoção, carinho e uma honra enorme. Só tenho a agradecer o reconhecimento que ele está tendo”, disse.


Luiz Francisco lembrou que a trajetória do pai foi marcada também por sacrifícios e renúncias e classificou a homenagem como “um grande momento” para a família e para aqueles que acompanharam e contribuíram com o trabalho de Luiz Phelipe Andrès.


Uma nova capacidade de resposta



O CRD Amares reúne resgate, atendimento veterinário, reabilitação, despetrolização, pesquisa, monitoramento da biodiversidade e educação ambiental. A estrutura conta ainda com laboratórios e espaços destinados a pesquisas e análises clínicas veterinárias.


Mais do que a entrega de um prédio, a inauguração representa uma nova capacidade de resposta para um estado com mais de 600 quilômetros de litoral e ecossistemas costeiros de grande importância ambiental.


A partir de agora, quando um animal marinho encalhar, adoecer ou for atingido por óleo, o Maranhão dispõe de uma estrutura especializada para recebê-lo, tratá-lo e, sempre que suas condições permitirem, devolvê-lo à natureza.


Uma conquista que encontra síntese nas palavras de Nathalie Ristau durante a inauguração:


“Conservação não se faz sozinha.”

 
 
 

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