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Sob as estrelas: fotógrafo espanhol registra espetáculo da Via Láctea nos Lençóis Maranhenses

  • Foto do escritor: reginaldorodrigues3
    reginaldorodrigues3
  • há 1 dia
  • 5 min de leitura

Imagens de Ignacio Fernández revelam uma face menos conhecida do Patrimônio Natural da Humanidade e chamam atenção para o potencial dos Lençóis também depois que o sol se põe



Os Lençóis Maranhenses voltaram a impressionar pelas imagens que chegam ao mundo. Desta vez, porém, o olhar não veio do espaço em direção às dunas e lagoas. Fez justamente o caminho contrário: dos Lençóis para o céu.


O fotógrafo espanhol Ignacio Fernández, especializado em paisagens noturnas e conhecido nas redes sociais como @igneis.nightscapes, registrou a Via Láctea sobre a paisagem do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, criando imagens em que dunas, lagoas e o céu estrelado parecem formar um único cenário.


As fotografias ganharam repercussão nas redes sociais nos últimos dias e chegaram a páginas maranhenses, despertando a atenção não apenas pela beleza, mas pelo aspecto quase surreal do resultado.


Natural de Granada, na Espanha, Ignacio viaja por diferentes destinos em busca de paisagens para seus trabalhos de fotografia noturna.


Em relato publicado no sábado, 29 de agosto, o fotógrafo explicou como chegou à perspectiva que chamou a atenção nas redes. Segundo ele, utilizou um drone para encontrar um ponto em que o arco da Via Láctea pudesse ser alinhado à paisagem, procurando transmitir nas fotografias a dimensão das lagoas e a sensação de infinitude dos Lençóis.


Uma viagem com direito a imprevisto


A produção das imagens, entretanto, não ocorreu exatamente como Ignacio havia planejado.


O fotógrafo contou que, ao chegar ao Brasil, teve sua mala extraviada e ficou sem itens importantes do equipamento, incluindo cabos e tripé, além das próprias roupas. O problema comprometeu boa parte das noites que ele pretendia dedicar à fotografia.


A bagagem apareceu posteriormente. Nos últimos dias da viagem, finalmente conseguiu realizar os registros que buscava nos Lençóis Maranhenses.


Na publicação que apresentou o trabalho ao público brasileiro, Fernández também demonstrou seu encantamento com a experiência no Parque Nacional.


“Já viajei para muitos lugares, mas estar ali me fez sorrir com o tão espetacular que é este lugar.”


A declaração foi reproduzida na publicação que repercutiu suas imagens no Brasil e ajuda a traduzir o impacto que a paisagem maranhense provocou no fotógrafo.


É fotografia ou Inteligência Artificial?



Em tempos de imagens produzidas por Inteligência Artificial, o caráter extraordinário dos registros inevitavelmente provocou questionamentos. E o próprio fotógrafo tratou de responder.


Ao divulgar detalhes do trabalho, Ignacio afirmou expressamente que não utilizou IA generativa para produzir a imagem e ressaltou que viajou da Espanha ao Brasil para realizar o registro.


Isso não significa, entretanto, que uma fotografia da Via Láctea corresponda exatamente ao que o olho humano percebe naquele momento. A astrofotografia utiliza recursos técnicos capazes de captar muito mais luz e detalhes do céu. Longa exposição, controle de abertura, sensibilidade ISO, arquivos em formato RAW e posterior tratamento das imagens são procedimentos comuns nesse tipo de fotografia.


Um guia especializado sobre fotografia da Via Láctea nos Lençóis Maranhenses, por exemplo, recomenda locais afastados das luzes urbanas, noites com pouca interferência da Lua, câmera com controles manuais, lente de grande abertura e tripé. A publicação sugere, como ponto de partida, exposições de aproximadamente 20 segundos, ajustadas conforme as condições do céu e o equipamento.


Ignacio também divulgou o equipamento utilizado em seu trabalho: Sony A7 IV modificada para astrofotografia, lente Sony 20mm f/1.8 G, drone DJI Mini 5 Pro e Benro Polaris.


Portanto, trata-se de fotografia especializada, com recursos técnicos próprios da astrofotografia - e não simplesmente da reprodução exata daquilo que uma pessoa observaria a olho nu.


A Via Láctea nos Lençóis não é novidade



Embora as imagens de Ignacio estejam ganhando repercussão agora, fotografar a Via Láctea nos Lençóis Maranhenses não é algo inédito. Há registros documentados há vários anos.


Uma fotografia disponível no Wikimedia Commons, produzida por Bruno Nogaki nas proximidades da Lagoa da Gaivota, em Santo Amaro do Maranhão, foi feita às 3h46 do dia 9 de junho de 2018. O arquivo conserva os dados técnicos do registro: exposição de 20 segundos, abertura f/2.8, ISO 1600 e distância focal de 11 mm.


É uma evidência documental de que o céu noturno dos Lençóis já desperta há bastante tempo o interesse de fotógrafos.


Também existem expedições fotográficas realizadas especificamente na região.


Em relato de um workshop promovido nos Lençóis em 2022, o fotógrafo Marcello Cavalcanti conta que o grupo permaneceu nas dunas após o pôr do sol para realizar uma sessão de astrofotografia e buscar composições da paisagem com a Via Láctea. Ele classificou o ponto utilizado naquela ocasião como Bortle 2/3, referência da escala empregada para indicar o nível de escuridão do céu e interferência da poluição luminosa.


A classificação citada refere-se ao ponto específico utilizado naquela expedição e não deve ser generalizada para toda a área do Parque Nacional.


Quando o sol se põe, pode começar outro Lençóis



As imagens também colocam em evidência uma possibilidade turística ainda pouco explorada na divulgação convencional do destino: o céu noturno dos Lençóis Maranhenses.


Grande parte da promoção turística está naturalmente associada às lagoas, aos circuitos realizados durante o dia e, especialmente, ao pôr do sol sobre as dunas. Mas a paisagem não desaparece quando anoitece.


Em áreas suficientemente afastadas da iluminação urbana, associadas a condições favoráveis de nebulosidade e fase da Lua, é possível observar e fotografar a Via Láctea. Guias especializados em astrofotografia nos Lençóis recomendam justamente buscar áreas distantes das fontes de luz e planejar a experiência de acordo com o calendário lunar e as condições meteorológicas.


Essa característica abre espaço para pensar o astroturismo e a contemplação do céu como experiências complementares no destino.


Não se trata de transformar áreas ambientalmente sensíveis em novos pontos de movimentação turística desordenada. Dentro de uma Unidade de Conservação, qualquer atividade precisa respeitar as regras de visitação e os objetivos de proteção do Parque.


Mas a contemplação do céu, quando adequadamente organizada, acrescenta uma dimensão diferente à experiência de quem visita os Lençóis.


Do espaço para os Lençóis; dos Lençóis para o espaço


A repercussão ocorre em um momento particularmente simbólico.


Recentemente, os Lençóis Maranhenses voltaram a ganhar projeção com uma imagem do Parque observada do espaço, revelando a extraordinária formação de dunas e lagoas que transformou esse território maranhense em Patrimônio Natural da Humanidade.


Agora, Ignacio Fernández oferece a perspectiva inversa. A câmera está nos Lençóis. O olhar está voltado para o Universo.


E as imagens do fotógrafo espanhol acabam revelando algo que o turismo talvez ainda possa explorar melhor: quem conhece os Lençóis Maranhenses somente sob a luz do sol ainda não viu tudo.


Quando a noite cai sobre as dunas e as luzes artificiais ficam distantes, um novo espetáculo começa acima delas.


Crédito das imagens: Ignacio Fernández /@igneis.nightscapes/Reprodução/Internet

 
 
 

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